Arquitetos e líderes do mundo todo assinam manifesto em favor da cultura

Preocupados com o futuro pós pandemia, os líderes acreditam ser tempo de repensar a economia e direcionar esforços para o desenvolvimento sustentável

Por Redação - 17 jun 2020, 17h29
Reprodução/CASACOR

Preocupados com o futuro do planeta após a pandemia do novo coronavírus, 24 pensadores, líderes e criativos de diferentes áreas de atuação assinaram um manifesto em função da recuperação econômica mundial. Segundo o texto, o momento é oportuno para repensar a estrutura econômica, tornando possível que as sociedades caminhem em direção à prosperidade e ao desenvolvimento sustentável. O manifesto ‘For a cultural revival of the economy‘  também ressalta a importância da cultura, da arquitetura e do design na reconstrução das áreas urbanas, “englobando as linhas de ecologia, coexistência e beleza”.

O documento foi assinado por mestres da arquitetura como Shigeru Ban, Kengo Kuma e Jean Nouvel, além de economistas vencedores do Prêmio Nobel e representantes dos setores culturais de gastronomia e turismo. Leia o manifesto na íntegra:

“A crise atual e as restrições impostas por elas enfatizaram a importância que cada um de nós damos ao ambiente que nos cerca. Ao mesmo tempo, todas as dimensões desse ambiente, formado por cultura, natureza e laços sociais, se destacam. Isso coincide com uma das observações feitas ao longo de muitos anos pela comunidade internacional — e em particular pela UNESCO —, reconhecendo que a cultura tem seu lugar no conceito de desenvolvimento sustentável.

Essa dimensão cultural em questão molda nossas condições de vida; ela é inseparável da economia diária e por isso econtra um alto eco nas circunstâncias presentes. O crescimento no componente de valor cultural tem se tornado uma tendência poderosa, que já está encontrando seu lugar nas políticas públicas e estratégias de negócios. Neste contexto, os territórios que mais preservam os elementos originais de suas identidades devem se beneficiar, se conseguirem desenvolvê-los com sucesso, em uma verdadeira ‘vantagem competitiva’.

Essa revitalização cultural de nosso ambiente local não significa uma falta de interesse nas sociedades distantes. Nosso interesse por outras culturas e a necessidade de conhecê-las melhor não pode evitar a expansão dentro do mundo do amanhã. Todos os territórios, incluindo aqueles com menos recursos econômicos e tecnológicos, podem ter uma mensagem cultural a transmitir. Assim, devemos oferecer a cada um deles a oportunidade de mostrar o que os torna únicos, em um mundo em que a padronização sinalizaria para empobrecimento e enfraquecimento.

Apesar de sua crescente importância, a cultura não tem sido suficientemente considerada como um ecossistema; ela permanece entendida por um ângulo colateral. Cidades são emblemáticas nesse fato. Espaços públicos e privados devem ser funcionais e estar em harmonia com as aspirações dos habitantes. Arquitetura e design podem contribuir para reiventar um mundo urbanizado que envolve linhas de ecologia, coexistência e beleza.

Essa dinâmica irá incentivar um mercado contínuo de valorização cultural do habitat. Além disso, o entusiasmo pela arte de viver continuará aumentando. Isto se torna verdadeiro no caso da comida que daqui para frente nós gostaríamos que fosse mais simples para o planeta, mais justa e significativa. Isso também acontecerá com o turismo, que deve tomar uma postura mais responsável. Quanto às tecnologias digitais, sua credibilidade irá aumentar através da qualidade do conteúdo criado e disseminado.

Nesse sentido, a economia púrpura propõe uma mudança de escala e percepção, favorecendo uma aproximação sistemática em que a diversidade de atividades e fatores culturais (educação, informação, comunicação e todos os bens com um forte componente sensível e imaginário) não são considerados formalmente isolados. Graças à essa transformação, a economia, imbuída do potencial da cultura, irá plenamente expressar seu caráter humano. Esta evolução tornará possível a prosperidade global, mais respeitosa com o ambiente natural e mais igualmente distribuída. O que antes era uma oportunidade agora deve se tornar o presente de um desenvolvimento sustentável”.

Assinaram o documento:
FERRAN ADRIÀ, chef
MASSIMILIANO ALAJMO, chef
ELENA ARZAK, chef
RAFAEL ARANDA, arquiteto (Prêmio Pritzker 2017)
SHIGERU BAN, arquiteto (prêmio Pritzker 2014)
MASSIMO BOTTURA, chef
MARIYA GABRIEL, comissária européia de inovação, pesquisa, cultura, Educação e Juventude
ÁNGEL GURRÍA, Secretário Geral da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)
JÉRÔME GOUADAIN, Secretário Geral do Prêmio Versailles
IRIS VAN HERPEN, estilista
KENGO KUMA, arquiteto
PASCAL LAMY, presidente do Musiciens du Louvre
ERIC MASKIN, Prêmio Nobel de Economia 2007
JEAN NOUVEL, arquiteto (Prêmio Pritzker 2008)
EDMUND PHELPS, Prêmio Nobel de Economia 2006
RENZO PIANO, arquiteto (Prêmio Pritzker 1998)
ANNESOPHIE PIC, chef
CARME PIGEM, arquiteta (Prêmio Pritzker 2017)
CHRISTOPHER PISSARIDES, Prêmio Nobel de Economia 2010
ZURAB POLOLIKASHVILI, Secretário Geral da Organização Turismo Mundial (OMT)
DAVID SASSOLI, Presidente do Parlamento Europeu
VERA SONGWE, Secretária Executiva da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África
JEAN-NOËL TRONC, Diretor Geral da Sociedade de Autores, Compositores e Editores de Música (Sacem)
RAMÓN VILALTA, arquiteto (Prêmio Pritzker 2017)

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