A fragilidade do (in)útil define o mobiliário artístico de Francisco Nuk

Em entrevista exclusiva para a CASACOR, Francisco Nuk reflete sobre a importância da inutilidade e explica como chegou às obras exibidas na SP-Arte

Por Yeska Coelho Atualizado em 6 Maio 2022, 12h11 - Publicado em 7 Maio 2022, 10h00
Exposição Francisco Nuk
Divulgação/CASACOR

O design de móveis e a arte andam lado a lado. Um móvel pode ser uma obra de arte e uma obra de arte, por sua vez, também pode ser uma peça de mobiliário. Mas há uma característica que distancia essas duas coisas: a primeira busca pela praticidade e funcionalidade, enquanto a outra pode ser simplesmente… inútil!

No livro “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, a filosofia do peso entra como tema central do romance e uma das conclusões que se pode chegar é que levar a vida com “peso” pode ser negativo, mas que o mesmo acontece com a leveza em excesso. Existe um peso na busca pela utilidade, e uma premissa de que tudo precisa de uma funcionalidade. É justamente um contraponto a isso que o artista Francisco Nuk propõe – ou como ele mesmo chama “a revolução da inutilidade“.

Exposição Francisco Nuk
Divulgação/CASACOR

Marceneiro e artista, Nuk apresentou junto à Galeria Lume um projeto artístico que explora a fragilidade do útil em relação ao inútil na SP-Arte 2022.  “Fazer algo que é útil não faz sentido para mim”, explica o artista.

Quem é Francisco Nuk?

 

Exposição Francisco Nuk

Filho de pai artista e mãe galerista, Francisco Nuk nasceu em 1990 em Belo Horizonte, e tem contato com o meio artístico desde que se entende por gente. Os pais, Sérgio Martins Machado e Paulina Ribeiro De Oliveira, se conheceram na escola de Belas Artes de Belo Horizonte, e no mesmo ano em que Nuk nasceu, a mãe abriu uma galeria de arte contemporânea – que acabou fechando depois de um tempo. Hoje, ela possui uma casa de eventos culturais. O pai segue como artista.

Apesar das influências dentro de casa, tanto os pais como a escola não incentivaram o jovem Francisco a seguir carreira nas Belas Artes. “Eles (a escola) tinham certos receios. Queriam que eu fizesse engenharia ou coisa do tipo”.

Exposição Francisco Nuk
Divulgação/CASACOR

Na escola, suas matérias favoritas eram história, arte e educação física. Decidiu seguir na faculdade de Educação Física, já que esportes também eram uma paixão. Ele se formou, mas nunca atuou na área.

Durante o ensino médio, foi estudar na Nova Zelândia, e ficou um ano e sete meses se aprofundando em marcenaria fina. Quando se formou e voltou, em 2009, queria continuar explorando as técnicas e materiais aprendidos. “Eu me apaixonei de fato pelo ofício. É um leque de possibilidades e de formas diferentes”.

Exposição Francisco Nuk
Divulgação/CASACOR

No meio do caminho, enquanto ainda cursava Educação Física, foi morar na Argentina, na casa de um marceneiro, e sentia que a marcenaria de alguma forma sempre o seguia. Depois de formado, viveu um período na Austrália, onde trabalhou pela primeira vez como marceneiro de fato.

Exposição Francisco Nuk
Divulgação/CASACOR

“Basicamente era uma oficina de senhores aposentados que tinham diferentes especialidades. Marcenaria, tornos, trabalho com couro, serralheria… Era um clube muito acessível em que eles até forneciam os materiais para produzirmos”.

Tanto tempo trabalhando com o que é considerado padrão de um mobiliário trouxeram ao lado artístico de Nuk uma inquietação. Ao voltar para o Brasil, começou a ajudar o pai na galeria, mas queria seguir o próprio caminho e explorar as próprias formas.

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A revolução da inutilidade

 

Exposição Francisco Nuk
Divulgação/CASACOR

Cansado de focar suas criações na utilidade, Nuk fez uma reflexão sobre o antagonismo e chegou a conclusão de que a arte pode ser inútil. Apesar da frase ser, de certa forma, “pesada”, o peso está na conotação negativa que o termo inútil possui – injustamente, na visão do artista.

O inútil, no final das contas, é sobre uma perspectiva. Cada um tem a sua.

Francisco Nuk

Ele decidiu pegar dois objetos que, segundo ele, são os que mais se aproximam da forma humana: uma gaveta e um guarda-roupa. Assim como os móveis, nós seres humanos também guardamos coisas, e estamos sempre buscando a utilidade e condenando a procrastinação.

“Eu peguei aquele objeto e fui entortando e tirando assim a utilidade que ele teria. No final das contas, essa gaveta tem o formato de uma mobília, mas não abre. Quando eu faço uma curva e a coloco de cabeça para baixo, ela pode até abrir, ela não deixa de ser gaveta, mas agora ela é inútil. A sacada acaba sendo até que simples”.

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Quando eu questiono a minha utilidade, é porque eu não estou satisfeito com ela. Se eu não estou satisfeito com isso, o oposto é a inutilidade. De alguma forma, precisamos buscar o inútil para encontrar a transformação e chegar a um lugar mais confortável.

Francisco Nuk

Foi necessária muita reflexão sobre a inutilidade e entender que ela não precisa ser algo negativo. “Se alguém virar e falar ‘você é um inútil’, dentro dessa nossa sociedade, pode ser um elogio”.

Para o artista, a inutilidade é uma forma de encontrar novos caminhos e não seguir os de sempre, já que o mundo está em constante mudança. A sua exposição faz esse chamado, de que a pausa para o ócio também é importante e nos ajuda a guiar novos caminhos.

O interior das gavetas…

 

Exposição Francisco Nuk
Divulgação/CASACOR

O artista utilizou o surrealismo para chegar no inútil, mas não se considera um “artista surrealista”.

Ele conta que quando começou a entortar as gavetas e o guarda-roupa, não estava focado no movimento artístico, mas ele veio quase que por acidente. “Quando eu comecei a questionar essa utilidade, eu me via como esse armário. É uma analogia do próprio ser humano que também coloca tudo em suas ‘gavetas'”.

 

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