Uma matéria publicada no
The New York Times em 15 de janeiro deste ano tenta desvendar o fascínio provocado pela foto de uma biblioteca que, volta e meia, aparece nas redes sociais e desencadeia uma enxurrada de comentários entusiasmados e
reposts. O texto esclarece que o ambiente já nem existe mais — foi desmontado após a morte de seu dono, o professor de literatura comparada norte-americano Richard Macksey, em 2019. Porém o encanto perdura:
pé-direito duplo, estantes lotadas de alto a baixo, pilhas de volumes pelo chão. Por que a imagem viralizou? Porque
mostra um lugar bem vivido e cheio de história, e espaços assim funcionam como antídoto contra as incertezas dos tempos atuais.
Após dois anos de pandemia de Covid-19,
o sentimento de exaustão é generalizado. Fora isso, a humanidade tem pela frente outros problemas de proporções gigantescas, como as mudanças climáticas, a crise financeira, a desigualdade social e racial e conflitos como a Guerra da Ucrânia, causados pelo redesenho do equilíbrio de forças na política internacional. Quando o mundo exterior apresenta desafios tão imensos, é natural
procurar refúgio na vida doméstica. Valores simbólicos associados à casa, como proteção, estabilidade, tranquilidade e bem-estar, ganham ainda mais relevância.
Cresce a necessidade de dar forma ao nosso infinito particular — abrigo de lembranças, paixões e prazeres.

Casa Janss Dan Brunn Architecture – Brandon Shigeta. A casa, que se tornou referência em Los Angeles nos ano anos 1970 e 80, foi reformada por Dan Brunn, reconhecido por sua linguagem minimalista
O infinito particular, portanto, representa um
refúgio biográfico — acervo de memórias e porto seguro dos moradores. Na era hiperdigital, porém, a expressão recebe outra camada de significado: as casas hoje se desdobram em inúmeras funções e possibilidades. “
A tela virou um ambiente do lar: um portal de acesso a reuniões de trabalho, aulas de ginástica, consultas médicas, serviços financeiros e opções culturais”, diz Barão di Sarno, designer e sócio-fundador da consultoria de inovação Questtonó. No início da pandemia, o fenômeno aconteceu por questão de segurança. “Ao longo do isolamento social, esse comportamento se consolidou e os moradores agora
desejam mantê-lo em nome da conveniência”, afirma Luiza Loyola, expert em futuro da WGSN, empresa global de estudos de tendências. Segundo pesquisa realizada em 2021 pela agência Ernst & Young em diversos países,
63% dos entrevistados já classificam como normais os hábitos digitais adquiridos durante o
lockdown.
(Ayumi Shibata (@ayumishibatart)/CASACOR)
Enquanto o universo virtual se expandiu, o espaço de circulação físico encolheu. “Com as restrições para viajar, ganhou força o
movimento de redescobrir a cidade. Houve uma valorização das áreas coletivas ao ar livre e do comércio local”, explica Maurício Medeiros, arquiteto, consultor de inovação e professor de tendências sócio-culturais no IED-SP. A lógica de
fortalecer os microcosmos comunitários está na origem do conceito de “
cidade de 15 minutos”, criado pelo pensador franco-colombiano Carlos Moreno, professor da Universidade Paris 1 Panthéon Sorbonne. Segundo essa proposta, o tecido urbano deve ser planejado de forma que os habitantes encontrem casa, escola, trabalho, compras, serviços e lazer a uma distância de 15 minutos. A ideia visa combater as mudanças climáticas: quanto menos deslocamentos, menos emissões de carbono. Claro, ela envolve abrir mão de confortos. Mas, nos últimos dois anos, o ser humano descobriu que é
capaz de se adaptar a um novo estilo de vida rapidamente quando a sobrevivência está em jogo.
(Gilbert McCarragher/CASACOR)