Arquitetura

Marko Brajovic: o tradutor da natureza em arquitetura

Em tempos de crise, o arquiteto e designer fala sobre novas formas de pensar, construir e se conectar com o mundo

por Ana Carolina Harada Atualizado em 11 set 2020, 17h39 - Publicado em
11 set 2020
17h31

O Nós e o Todo

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Reprodução Atelier Marko Brajovic/CASACOR

Socialmente isolado na Casa ARCA, em tempos de covid-19, Marko Brajovic parece ter ainda mais convicção nos ideais que norteiam sua vida e seu processo criativo. O arquiteto e designer croata, formado pela Universidade de Veneza (IUAV), dedicou sua carreira à um meticuloso trabalho de tradutor, não de um idioma para outro, mas da linguagem da natureza para a linguagem do projeto, do design, do urbanismo. É da natureza que vem a inspiração de tudo que faz. “A conexão com a natureza é fundamental para a sobrevivência da nossa espécie. Estamos finalmente conscientes de que fazemos parte do todo, e que tudo está interconectado. Há uma interdependência entre todos os sistemas vivos”.

“Esse grande momento difícil deixa claro que fazemos parte de um organismo vivo, não de uma máquina”, explica. O discurso de Brajovic – que vive no Brasil desde 2006 – transcende a arquitetura. Sua reflexão diz respeito à sociedade e a forma como tomamos parte nela. Citando a ativista Greta Thunberg “Change Is Coming Whether You Like it or Not’” (a mudança está vindo quer você queira ou não), ele entende que a mudança implicará, necessariamente, em uma mudança na forma de projetar. O arquiteto propõe um pensar ecológico, que atravessa os mais variados aspectos sociais e comportamentais da “civilização”: como consumimos, como habitamos, como produzimos, como nos enxergamos.

No centro da filosofia está a ideia de que a natureza não está somente nas florestas, mas em tudo, em todos. Assim, para garantir a permanência humana, é preciso se conectar com ela e aprender seus mecanismos. “A natureza é um designer de 3,8 bilhões de anos”, diz. Peixes, aves, mamíferos, insetos são perfeitamente adaptados ao seu ambiente. A natureza não é focada em de oferecer um produto final, mas soluções flexíveis, graças à mudança constante vinda do processo evolutivo. “O homem aprende com a natureza desde os tempos ancestrais, até chegar no momento dramático que vivemos hoje”. Agora, Brajovic acredita ter chegado a hora de redesenhar a forma como existimos. “Temos que aprender como não gerar lixo, porque na natureza nem há o conceito de lixo, como gerar energia limpa, como nos alimentar de forma cíclica e saudável”.

Em seu atelier, Brajovic instrumentaliza essa conexão por meio de três correntes: o estudo comportamental (como as pessoas agem), fenomenologia (como a física age) e a Biomimética (como a natureza age); “A Biomimética é uma das metodologias que nos oferece essas técnicas de compreensão da biologia e de sua traslar seu conhecimento para outras áreas”.

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Natureza como professora

O nome “Biomimética” vem da união dos termos gregos bíos, a vida e mímesis, que significa imitação. Apesar da morfologia, este campo multidisciplinar não se limita ao aspecto estético das estruturas naturais. Ele está relacionado à compreensão dos mecanismos naturais e físicos e a transposição deles para as tecnologias de inovação. A criação do velcro pelo engenheiro suíço Georges de Mestral em 1941, por exemplo, foi inspirada pela forma como as sementes da planta Arctium grudavam em suas roupas.

Exemplos marcantes e conhecidos de biomimética na arquitetura são o Estádio Nacional de Pequim, apelidado Ninho do Pássaro, do escritório Herzog & de Meuron e o Pabellón Quadracci do Museu de Arte de Milwaukee de Santiago Calatrava, cuja cobertura se abre e fecha ao longo do dia como as asas de uma mariposa para controle da luminosidade. Até prédios não contemporâneos possuem elementos biomiméticos: o Edifício Johnson Wax de Frank Lloyd Wright dispõe de colunas em formato de folhas de vitória-régia, que flutuam na água. Fundações como raízes, andares em balanço como galhos, e prédios em forma de cupinzeiros para manter o conforto térmico são provas de como a natureza é sofisticada e capaz de solucionar problemas.

A partir desta vertentes, Brajovic acredita ser possível fazer uma arquitetura e um design capazes de redesenhar o cotidiano. “A tecnologia da natureza é high tech, altíssima tecnologia, a melhor que temos. As florestas do Brasil e da América do Sul são laboratórios de riqueza inestimável, que tem que ser preservada, entendida. É preciso desenhar com a natureza”. Essa visão contrapõe-se aos ideais modernistas – pautados sobretudo pela valorização da indústria, do urbano e da produção em massa. Se a arquitetura moderna divide e quantifica os espaços pela função, Brajovic resgata as ideias dos povos originários com habitações coletivas e sem demarcações de cômodos. “Uma oca é 100% um quarto quando você a usa como quarto, 100% uma cozinha, 100% um espaço de trabalho, de aulas, de transmissão de conhecimento e contato com a família. Nela, a arquitetura é uma extensão do próprio corpo”.

Em um período de crise generalizada, com o coronavírus revelando o quão frágeis os sistemas mundiais são, o arquiteto entende que a solução não pode ser unidimensional. Junto do Atelier, ele pensa em projetos imersivos, multisensoriais, feitos para incitar a reflexão acerca da mudança necessária em quem os visita. “Precisamos nos alinhar com a natureza porque nós somos natureza”.

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Casa ARCA

O nome surgiu dos moradores da região quando a construção surgiu na floresta no entorno do Parque Nacional Serra da Bocaína, perto de Paraty, no Rio de Janeiro. Já o projeto é baseado nas construções do povo Asurini, do Médio Xingu. O método construtivo começa de cima para baixo, pelo teto. Estruturas autoportantes foram utilizadas na cobertura, paredes laterais e acabamentos. Os módulos de aço carbono + alumínio + zinco são leves e podem ser montados e desmontados em menos de uma semana. O interior só foi concebido após a parte estrutural ser finalizado. Isso porque, por ser uma residência móvel, é preciso se considerar as especificidades do local que ela se encontra. Incidência solar, vento e vista definem as posições dos móveis. Em seu site, o time de profissionais coloca que as divisórias foram marcadas no momento, com fita crepe. A espontaneidade é uma maneira de permitir que a casa se adapte ao seu ocupante, mesmo depois de pronta.

Casa ASHA

Inspirada na arquitetura do povo Ashaninka, a Casa ASHA segue a lógica de não hierarquizar os espaços, como as construções dos povos originários. Graças ao uso de tábuas finas (medindo 5cm x 14cm) ao invés de fundações pesadas, seu layout é flexível. Ela pode ser uma residência de dois quartos, um quarto e uma sala, um escritório e uma sala e até uma sala de aula. O teto é o elemento que mais chama a atenção. Ele cobre as paredes até a altura de 1,5. Isso economiza material, já que dispensa o uso de vidros nas laterais e fornece uma proteção eficaz contra as intempéries. Além disso, os espaços cobertos vazios podem ser aproveitados como locais de armazenamento, mesma função empregada pelo povo Ashaninka.

Pavilhão Brasileiro na Expo Milão 2015

Fruto da parceria entre os Studio Arthur Casas e Atelier Marko Brajovic, com a colaboração dos curadores Eduardo Biz e Rony Rodrigues e do escritório italiano Mosae, o Pavilhão Brasileiro tinha como tema “Brasil: alimentando o mundo com soluções”. Ele era composto por dois momentos, uma galeria com um túnel imersivo e um bloco mais fechado com as exposições. Os arquitetos imaginaram um espaço descentralizado, flexível, fluído, representando a diversidade brasileira – cultural, étnica, climática e biológica. A resposta foi uma grande rede interativa que serve como piso, simbolizando a conexão e ao mesmo tempo a desconexão. Não há percurso pré-determinado dentro do Pavilhão, e cada visitante altera o espaço projetando sombras, gerando sons e tensionando a rede quando caminha.