comScore
CASACOR
Sustentabilidade, Cidades

Cidades flutuantes: quais os desafios para implementar no Brasil?

Especialista explica como as cidades flutuantes trazem benefícios às regiões atingidas por enchentes e como adaptá-las à realidade brasileira

Por Milena Garcia

Publicado em 13 de jan. de 2026, 12:01

08 min de leitura
Cidade flutuante

Cidade flutuante (Divulgação)

Cidades flutuantes são construções suspensas sobre oceanos, rios ou lagos. Elas surgem como uma resposta criativa aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, especialmente em contextos de expansão urbana marcados por enchentes recorrentes durante os períodos chuvosos. Para compreender melhor os obstáculos e as possibilidades desse modelo construtivo no contexto brasileiro, a CASACOR conversou com a especialista Marcella Arruda. Curadora da 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, que teve como tema “Arquitetura para um Mundo Quente”, Marcella é arquiteta, urbanista e pesquisadora. Sua atuação é voltada para projetos socialmente justos e ecologicamente regenerativos, incluindo estudos e iniciativas relacionadas às cidades flutuantes.

Cidade flutuante

(Divulgação)

Ela explica que a proposta das cidades flutuantes parte de uma lógica diferente da urbanização tradicional. “As cidades flutuantes são o contrário das habitações de concreto que estamos acostumados. Elas entendem que os rios têm a flutuação das marés e buscam compor com esse movimento natural das águas de maneira mais harmônica”.

Vantagens das cidades flutuantes e desafios no Brasil


De acordo com Marcella Arruda, os benefícios da implantação de cidades flutuantes no Brasil são quase imensuráveis. “Temos muitas cidades que sofrem com a questão das enchentes e inundações, que nada mais são do que o rio recuperando uma área que uma vez foi dele”. Ela complementa destacando que o princípio desse modelo construtivo está na adaptação ao comportamento natural da água. “A lógica das cidades flutuantes vem justamente de você não ter que lidar com essas perdas e danos, mas de se adaptar aos diferentes níveis de água. Não é sobre viver o extremo e depois correr atrás do prejuízo”.


Apesar das vantagens, a especialista aponta que a adoção desse tipo de solução no Brasil envolve desafios técnicos, estruturais, regulatórios e sociais. Entre eles estão a necessidade de sistemas de ancoragem eficientes, soluções de saneamento ecológico, gestão adequada de resíduos e garantia de acesso à água potável e à eletricidade.

Cidade flutuante

(Divulgação)

Um caminho fundamental para enfrentar essas questões, segundo Marcella, passa pelo reconhecimento do conhecimento empírico das populações ribeirinhas. Esses grupos acumulam vivências profundas sobre o comportamento dos rios e os ciclos naturais das regiões onde vivem, o que pode contribuir de forma decisiva para o desenvolvimento de soluções mais adequadas. “É fundamental que essas soluções sejam prototipadas, testadas e aplicadas. E que, para isso, elas priorizem as populações que são mais afetadas pelos extremos climáticas. Ao mesmo tempo, que elas também envolvam a população nessa manutenção, gestão e monitoramento”.

Exemplos internacionais como referência


Ao ser questionada sobre referências internacionais, Marcella Arruda cita o caso de Babahoyo, no Equador. “Temos um contexto semelhante ao deles, com a realidade amazônica. Em termos de replicabilidade, algo que podemos aprender é sobre a parceria que eles fizeram entre universidade, comunidade e a assessoria técnica de engenheiros e arquitetos”. O projeto foi debatido em um dos talks da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo e pode ser conferido na íntegra aqui.

Adaptar - Bienal de Arquitetura de São Paulo

Adaptar - Bienal de Arquitetura de São Paulo (Estúdio Guanabara/Divulgação)

Ainda assim, a arquiteta ressalta a importância de uma análise criteriosa ao observar experiências de outros países. “É muito importante reconhecer como essas soluções foram aplicadas, qual o custo e quais as necessidades de manutenção. Muitas vezes, os contextos de outros países são muito diferentes do nosso, então são criados critérios que impossibilitam a replicação”.

Outras medidas úteis


Para além das cidades flutuantes, Marcella Arruda destaca outras estratégias de enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas nas cidades. Ela aponta três pilares centrais: a arquitetura bioclimática, a recuperação da vegetação nativa nas margens dos rios e um olhar sistêmico para as demandas urbanas.

Cidade esponja na China

Sanya Mangrove Park, em Hainan, é um dos projetos de Kongjian Yu que exemplifica o conceito de cidade-esponja, restaurando ecossistemas costeiros e protegendo a cidade contra enchentes. (Turenscape/Divulgação)

“Que a gente possa considerar soluções ecológicas, sustentáveis e regenerativas, mas que também possamos aplicar essas tecnologias considerando as vulnerabilidades da população. Apenas reparando as desigualdades e entendendo como criar a capacidade local de adaptação é que conseguimos fazer com que as políticas públicas cheguem a quem elas mais precisam chegar”, finaliza.