Com dois projetos simultâneos na CASACOR 2026, Eduardo Baldelomar faz manifesto afetivo sobre pertencimento, identidade e preservação cultural
Publicado em 23 de jun. de 2026, 8:00

Eduardo Baldelomar (Carolina Mossin/CASACOR)
Eduardo Baldelomar é um dos profissionais mais reconhecidos da CASACOR Bolívia e, pela terceira vez, encara um desafio que muitos de seus colegas considerariam impossível: conciliar a mostra em seu país de origem com a CASACOR São Paulo, tendo apenas poucas semanas de diferenças entre os projetos.
Eduardo Baldelomar - Casa del Valle. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026. (Alvaro Mier/CASACOR)
O arquiteto assina o ambiente Casa del Valle, inspirado em suas memórias afetivas na Bolívia, e paralelamente presta homenagem à cultura dos chiquitos com o Coliving Chiquitano. Ambos os espaços se destacam pela relação íntima com o tema proposto pela CASACOR 2026, Mente e Coração, e traduzem com sensibilidade o propósito de Baldelomar: transforma a arquitetura em ferramenta de preservação cultural.
Eduardo Baldelomar - Coliving Chiquitano. (Carolina Mossin/CASACOR)
"Na Bolívia, eu homenageei meu pai e as tradições de Vallegrande, sua culinária, música e arquitetura. Já em São Paulo, que tem essa visibilidade muito maior, eu aproveitei para fazer uma reivindicação a favor dos povos das Terras Baixas da Bolívia. É uma cultura não comunicada, mas que tem um legado arquitetônico, cultural, artesanal e musical muito importante. Fiz essa escolha para que pudesse criar uma ponte entre os gestores culturais do Brasil e os artesãos da Bolívia", conta em entrevista à CASACOR.
O processo criativo de Eduardo Baldelomar para desenvolver não apenas um, mas dois ambientes ao mesmo tempo, começa sempre pela pesquisa aprofundada de referências. "O manifesto da CASACOR 2026 é um estímulo para que nos questionarmos: 'Onde você se sente verdadeiramente você?'. Com isso, soube que precisava falar sobre a minha conexão ancestral, trazendo algo que se traduzisse em energias".
Eduardo Baldelomar - Casa del Valle. (Alvaro Mier/CASACOR)
Em seguida, o arquiteto mergulha em um processo rigoroso de investigação. No caso do Coliving Chiquitano foram quatro viagens ao leste da Bolívia, sempre marcadas por encontros com artistas e artesãos locais; visitas a igrejas, povoados e centros; e boas conversas com a população. O resultado foi uma imersão sensível, porém potente, na região onde tradições indígenas milenares seguem vivas e dialogam com a herança deixada pelas missões jesuítas.
Eduardo Baldelomar - Coliving Chiquitano. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Carolina Mossin/CASACOR)
Uma surpresa é que Baldelomar se entregou tanto à missão, que foi o primeiro a entregar seu projeto na CASACOR São Paulo. "Como tudo na vida, é preciso muita organização. Eu tenho um suporte grande na Bolívia, tenho um escritório e ótimas parcerias. Praticamente, eu direciono tudo à distância lá. Aqui no Brasil, eu ainda estou aprendendo, estou há dois anos no mercado. Eu mesmo supervisiono o trabalho aqui para dar certo".
Um dos grandes desafios da participação na CASACOR São Paulo 2026 foi o transporte de mais de 200 obras de autores bolivianos e artesãos indígenas. No entanto, o caminho não poderia ser diferente: Baldelomar acredita que a valorização da cultura boliviana é uma forma de ampliar o olhar sobre a identidade latino-americana e valorizar tradições que ainda permanecem pouco conhecidas. Entre as peças, estão máscaras, partituras, instrumentos musicais, peças artesanais e mobiliários autorais que referenciam o estilo barroco mestiço da selva.
Eduardo Baldelomar - Coliving Chiquitano. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Carolina Mossin/CASACOR)
"Eu sinto que tenho um compromisso com o meu país. Faz cinco anos que resolvi virar minha carreira e trabalhar pesquisando sobre cultura. Eu até poderia fazer um espaço pensado para atrair clientes, mas hoje já não estou mais na área comercial. Meu objetivo é 'construir pontes' para esses povos pouco comunicados. Essa é uma responsabilidade que eu assumo com muito amor".
Quem vê Eduardo Baldelomar falar com tranquilidade sobre mais duas, entre as suas 15 participações na CASACOR desde 2013, nem imagina que integrar o elenco da maior mostra de arquitetura, design de interiores e paisagismo das Américas já foi um sonho distante. Tudo começou quando decidiu enviar um email à organização CASACOR Bolívia pedindo uma oportunidade.
Eduardo Baldelomar - Jorori Lounge Gourmet. (Alvaro Mier/CASACOR)
"Eu sou uma pessoa de manifestar. Comprava os anuários da CASACOR desde quando estava na universidade. Quando vi o anúncio no jornal que a CASACOR chegaria à Bolívia, passei dois meses pensando nisso. Até que resolvi escrever: 'Olá, eu sou o Eduardo e gostaria de uma entrevista'. Mostrei o meu portfólio pequeno e eles estenderam espaço para mim. Deu certo porque eu não esperei, eu fui atrás".
Eduardo Baldelomar - Legado Loft. Projeto da CASACOR Bolívia 2024. (Alvaro Mier/CASACOR)
Os sonhos do arquiteto não pararam por aí: em sua primeira viagem a São Paulo, em 2012, soube que a cidade seria sua futura morada. Dez anos se passaram até que recebeu um convite, da própria curadoria da CASACOR, para integrar o elenco da mostra principal. Atualmente, ele se divide entre a ponte aérea Santa Cruz de La Sierra-São Paulo.
Como tamanho propósito empregado aos ambientes na CASACOR 2026, Baldelomar não pretende deixar que as histórias se encerrem com o fim das mostras: em 20 de junho, na Bolívia, e em 9 de agosto, em São Paulo. Pelo contrário, o arquiteto pretende aproveitar a visibilidade para levar os artesãos bolivianos mais longe.
"A Bolívia é um país de terceiro mundo, a gente sobrevive. Não existe investimento do governo para promover nossa cultura, especialmente nas Terras Baixas. É uma realidade triste, então eu tenho que administrar esse momento para levar retorno àqueles que me deram toda essa força", diz.
Na prática, Eduardo Baldelomar trabalha diariamente para fazer novas conexões através da CASACOR. Entre elas, está o arquiteto Hugo Ribas, também do elenco da CASACOR São Paulo 2026. Seu objetivo é reunir pessoas e associações culturais dispostos a abrir portas à arte indígena ao seu lado, conectando artesãos e compradores.
"Cada um pode fazer a sua parte. Eu acredito que o que eu faço pode mudar o pensamento de outras pessoas, para que elas possam somar e trabalharmos juntos. Para mim, isso já é uma realização: que eu consiga motivar as pessoas com o meu trabalho. Não posso fazer menos do que eu já estou fazendo", conclui.