Entre instalações, coleções e experiências imersivas, as grandes casas de moda transformam o design de interiores em extensão narrativa de seus universos criativos
Publicado em 23 de abr. de 2026, 8:00

Objets Nomads, da Louis Vuitton. (Louis Vuitton/CASACOR)
Na Milan Design Week 2026, a presença das grandes maisons de moda deixa de orbitar apenas o objeto para ocupar o território expandido da experiência. Entre instalações imersivas, coleções de mobiliário e intervenções urbanas, estas marcas reposicionam o design de interiores como linguagem estratégica, capaz de traduzir códigos de marca em espaços sensoriais. Mais do que apresentar peças, essas casas constroem narrativas: percursos que articulam memória, matéria e identidade em ambientes concebidos para serem vividos, e não apenas observados.
Objets Nomads, da Louis Vuitton. (Louis Vuitton/CASACOR)
Seja ao revisitar arquivos históricos, explorar novas materialidades ou ativar o cotidiano por meio de experiências imersivas, maisons como Versace, Louis Vuitton, Hermès, Bottega Veneta, Marni, Gucci e Issey Miyake revelam abordagens distintas, mas convergentes em um ponto: a construção de universos completos, onde objeto, arquitetura e narrativa se entrelaçam. Confira a seleção abaixo!
Versace Home. (Versace Home/CASACOR)
Na Milan Design Week 2026, a Versace Home apresenta uma coleção que aprofunda sua investigação sobre o morar contemporâneo a partir de uma leitura própria do classicismo. A proposta combina volumes esculturais, materiais refinados e o savoir-faire italiano, reinterpretando referências históricas sob uma ótica atual.
Versace Home. (Versace Home/CASACOR)
Ícones da maison, como a Medusa, são traduzidos em gestos arquitetônicos e acabamentos luxuosos, criando peças que equilibram presença expressiva e conforto cotidiano. Mais do que objetos isolados, a coleção é concebida como um sistema integrado, no qual cada elemento possui identidade própria, mas dialoga com os demais em composições versáteis, adaptáveis a diferentes configurações e estilos de vida.
Versace Home. (Versace Home/CASACOR)
Entre os lançamentos, o sofá Meteora sintetiza essa visão ao reinterpretar o classicismo com linhas rigorosas e uma estrutura escultórica. A poltrona Hestia aposta em uma forma fluida e contínua, enquanto a Desmos explora a ideia de conexão estrutural por meio de faixas aparentes que moldam sua silhueta. Já as luminárias Medusa Euphoria e Focus traduzem símbolos da maison em objetos de forte presença, com destaque para o trabalho artesanal em vidro soprado de Murano. Completam a coleção peças como a cadeira Delphi, inspirada na arquitetura circular do Tholos de Delfos, e os pufes Argus, concebidos como um conjunto modular.
Durante a semana de design, os lançamentos estão expostos no showroom da Versace Home, no Palazzo Versace, em Milão.
Objets Nomads, da Louis Vuitton. (Louis Vuitton/CASACOR)
Na Louis Vuitton, a coleção Objets Nomades ganha uma dimensão cenográfica ao ocupar integralmente o Palazzo Serbelloni, onde a maison constrói um percurso que articula herança e experimentação. A edição de 2026 é guiada por um tributo ao designer Art Déco Pierre Legrain, cuja linguagem gráfica e domínio dos materiais informam uma série de reedições e novas criações — do mobiliário aos têxteis e objetos de mesa.
Ao reunir designers contemporâneos e artesãos em torno desse repertório histórico, a coleção reforça o diálogo entre tradição e inovação, posicionando o design como continuidade viva do savoir-faire da casa.
Objets Nomads, da Louis Vuitton. (Louis Vuitton/CASACOR)
A exposição se desdobra em uma sequência de ambientes imersivos, nos quais peças inéditas convivem com baús históricos e elementos de arquivo, criando uma narrativa que percorre do Art Déco à produção contemporânea.
Louis Vuitton. (Louis Vuitton/CASACOR)
Colaborações com nomes como Estudio Campana, Raw Edges e Accademia di Belle Arti di Brera ampliam esse campo, incluindo desde objetos colecionáveis até uma instalação monumental no pátio, onde padrões de encadernação são traduzidos em uma superfície caminhável.
O resultado é uma encenação que ultrapassa o objeto e se afirma como experiência espacial, em que o design emerge como narrativa sensorial e histórica.
Bottega Veneta. (Bottega Veneta/CASACOR)
Já na Bottega Veneta, a ativação assume a forma de uma investigação sensorial sobre matéria e luz com Lightful, instalação concebida pelo designer Kwangho Lee e apresentada na boutique da Via Sant’Andrea, em Milão.
Desenvolvido sob direção criativa de Louise Trotter, o projeto parte do vocabulário central da maison — o intrecciato — para expandi-lo em escala arquitetônica, por meio de estruturas suspensas formadas por tiras de couro entrelaçadas.
Bottega Veneta. (Bottega Veneta/CASACOR)
Em tons de verde e preto, escolhidos especialmente para a instalação, essas formas orgânicas exploram textura, superfície e tridimensionalidade, ao mesmo tempo em que estabelecem um diálogo direto com a tradição artesanal da casa.
Bottega Veneta. (Bottega Veneta/CASACOR)
Mais do que uma instalação, Lightful se configura como um campo de experimentação onde o gesto manual encontra a escultura luminosa. Algumas das peças incorporam fontes de luz em LED, transformando o couro — matéria emblemática da Bottega — em veículo para investigar transparência, sombra e profundidade. Resultado de um processo colaborativo com os artesãos do ateliê de Montebello Vicentino, o projeto revela uma tensão precisa entre controle técnico e improvisação, característica do trabalho de Lee.
Gucci Memoria. (Gucci/CASACOR)
Já na Gucci, o design se manifesta como narrativa expositiva em Gucci Memoria, mostra imersiva com curadoria de Demna apresentada nos Chiostri di San Simpliciano, durante o Fuorisalone 2026. Concebido como um percurso contínuo, o projeto revisita os 105 anos da maison ao articular passado e presente a partir de suas origens florentinas. A cenografia se estrutura em camadas — tapeçarias, ambientes botânicos e dispositivos interativos —, criando um campo expandido onde diferentes linguagens entram em diálogo.
Gucci Memoria. (Gucci/CASACOR)
No centro da proposta, um ciclo de doze tapeçarias constrói uma crônica visual da casa, traduzindo momentos-chave de sua trajetória, da formação de Guccio Gucci em Londres à consolidação de uma identidade estética própria e sua projeção internacional.
Ao longo do percurso, distintas eras criativas ganham forma, com alusões a peças emblemáticas como as bolsas Jackie 1961 e Bamboo 1947, além das contribuições de diretores criativos como Tom Ford, Frida Giannini, Alessandro Michele e Sabato De Sarno, culminando no momento atual sob Demna.
Gucci Memoria. (Gucci/CASACOR)
Em paralelo, um jardim inspirado no motivo Flora ocupa o claustro principal, enquanto máquinas de venda automática introduzem uma dimensão lúdica ao distribuir bebidas do Gucci Giardino, associadas a personagens da “La Famiglia”. A exposição se estende ainda para além de seus limites físicos, com o pré-lançamento de peças com o padrão Flora em endereços estratégicos de Milão, reafirmando o design como linguagem narrativa e sensorial.
Hermès. (Hermès/CASACOR)
Na Hermès, a apresentação da coleção maison se desdobra como uma paisagem arquitetônica imersiva no espaço La Pelota, onde o design é organizado como uma espécie de cartografia sensorial. Concebido pelas diretoras artísticas Charlotte Macaux Perelman e Alexis Fabry, o projeto transforma o ambiente em uma “cidade de objetos”, na qual volumes brancos, planos e estruturas modulares emergem como construções abstratas.
Hermès. (Hermès/CASACOR)
A cenografia propõe um percurso que joga com distâncias, enquadramentos e perspectivas, revelando gradualmente peças que parecem flutuar ou se afastar do alcance imediato, em um exercício preciso de percepção espacial e contemplação.
Hermès. (Hermès/CASACOR)
Nesse contexto, a nova coleção se afirma por meio de objetos que exploram matéria, cor e técnica com rigor silencioso, em continuidade com o vocabulário artesanal da maison. Vidros, couros, têxteis e cerâmicas aparecem em composições que equilibram densidade e leveza, enquanto padrões e superfícies evocam uma leitura contemporânea do cotidiano doméstico.
Marni x Cucchi. (Marni/CASACOR)
Na Marni, o design se materializa como experiência cotidiana em Marni x Cucchi, intervenção que ocupa a histórica Pasticceria Cucchi durante a Milan Design Week 2026. Concebido como um tributo aos rituais milaneses — do cappuccino matinal ao aperitivo —, o projeto transforma o café em uma cenografia viva, onde hábitos e gestos cotidianos são elevados à condição de linguagem projetual. ]
Marni x Cucchi. (Marni/CASACOR)
A colaboração estabelece um diálogo entre duas identidades profundamente enraizadas na cidade, fundindo a herança do espaço com a estética experimental da maison sob a direção criativa de Meryll Rogge.
Marni x Cucchi. (Marni/CASACOR)
A intervenção, desenvolvida pelo estúdio RedDuo, se desdobra em um vocabulário visual que permeia cada elemento do ambiente — de louças e têxteis ao design gráfico e uniformes. Tons de vermelho e verde, aplicados em padrões retrô de listras e poás, constroem uma narrativa que articula memória e contemporaneidade, enquanto objetos como xícaras e pires se tornam extensões tangíveis da experiência, disponíveis também para aquisição.
Issey Miyake. (Issey Miyake/CASACOR)
O design se ancora em uma investigação radical da matéria na Issey Miyake com The Paper Log: Shell and Core, projeto concebido por Satoshi Kondo, do Miyake Design Studio, em colaboração com o Ensamble Studio. Apresentada na flagship da marca em Milão, a proposta parte de um gesto conceitual preciso: reimaginar os rolos de papel comprimido — subproduto do processo de plissagem característico da maison — como matéria-prima para mobiliário e objetos escultóricos.
Issey Miyake. (Issey Miyake/CASACOR)
Esses cilindros, originalmente destinados ao descarte, são reinterpretados como “troncos”, cuja aparência marmorizada remete aos anéis de crescimento de uma árvore, condensando tempo, processo e memória em uma única estrutura.
Issey Miyake. (Issey Miyake/CASACOR)
A exposição se organiza em duas investigações complementares — Shell e Core — que tensionam diferentes estados da matéria. Enquanto o Ensamble Studio trata o papel como uma pele escultórica, cristalizando suas dobras em formas quase arquitetônicas, a equipe interna explora sua densidade estrutural em protótipos de mobiliário, como bancos, mesas e assentos. Submetido a processos de corte, prensagem, enceramento e moldagem, o material revela uma surpreendente amplitude de qualidades — do etéreo ao maciço —, evidenciando o potencial tridimensional do papel.