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O que fica de Milão? 10 exposições que marcaram a semana de design

Entre instalações em palazzos históricos e o protagonismo do modernismo brasileiro, confira os destaques da Milan Design Week 2026

Por Marina Pires

Publicado em 11 de mai. de 2026, 12:35

Mais de 10 min de leitura
When Apricots Blosoom - MDW 2026

When Apricots Blosoom - MDW 2026 (Divulgação/CASACOR)

Em 2026, a Semana de Design de Milão mostrou que o design contemporâneo ganha força ao revisitar o passado. Mais do que lançamentos, a edição foi marcada por um olhar de resgate e releitura, com palazzos e vilas históricas abertas pela primeira vez ao público, que serviram de cenário para encontros entre diferentes épocas e linguagens. Entre a redescoberta de mestres do pós-guerra e a valorização do modernismo brasileiro no circuito europeu, Milão se afirmou não só como vitrine, mas como espaço de memória e preservação cultural.


A seguir, selecionamos 10 exposições que definem o espírito desta temporada.

Villa Pestarini (Alcova)

Pela primeira vez, a Villa Borsani abriu suas portas ao público durante a Semana de Design de Milão, servindo de cenário para as intervenções da plataforma Alcova. Projetada por Franco Albini na década de 1940, a residência permaneceu privada e preservada por décadas como uma joia do racionalismo italiano.


A ocupação respeitou a arquitetura original, mas introduziu camadas contemporâneas que dialogaram com a materialidade da casa. O ponto alto da visita aconteceu no térreo, onde a luz natural abraçou o espaço através das icônicas paredes de vidro translúcido. Foi ali que a exposição "Albini in Present Tense" ganhou protagonismo: uma colaboração entre Patricia Urquiola, Haworth e Cassina, que resgatou o legado de Franco Albini através de reedições exclusivas, incluindo uma poltrona inédita de 1947.

Alcova 2026 ocupa dois ícones esquecidos de Milão com instalações experimentais

Villa Pestarin. ( Luigi Fiano e Ardesia Cocca/CASACOR)

Jorge Zalzupin e Cristián Mohaded - Etel

Para a MDW 2026, a ETEL apresentou o legado de Jorge Zalszupin, traçando sua trajetória desde as raízes polonesas até a consagração no Brasil. A exposição exibiu peças icônicas em jacarandá, como o banco Onda e a poltrona Dinamarquesa, reafirmando a relevância do modernismo brasileiro no mercado internacional.


A mostra ocupou uma localização estratégica: o topo da Torre Velasca. Construído na década de 1950, o edifício é um dos principais marcos do brutalismo milanês, conhecido por sua silhueta que remete às torres medievais de vigilância, porém executada em concreto armado. Recentemente restaurada, a torre serviu de moldura para o mobiliário de Zalszupin, conectando duas expressões históricas do pós-guerra.


Paralelamente, em sua galeria na Via Maroncelli, 13, a marca lançou a coleção Entropia, do designer argentino Cristián Mohaded. No projeto, Cristián utilizou fragmentos de madeira acumulados no ateliê da ETEL, em São Paulo, transformando resíduos de diferentes espécies em peças novas. Em vez de uniformizar a matéria-prima, o designer valorizou contrastes e irregularidades, criando composições que transitam entre o objeto funcional e a escultura.

Cristián Mohaded - Etel - MDW2026

Cristián Mohaded - Etel (Marina Pires/CASACOR)

Polish Modernism - Visteria Foundation

No topo da Torre Velasca, em diálogo com a exposição de Zalszupin, a Visteria Foundation apresentou a mostra "Polish Modernism: A Struggle for Beauty". Longe de ser apenas uma exibição estética, o projeto propôs uma imersão no design como ato de preservação cultural, revelando como o modernismo polonês moldou a identidade de uma nação e serviu como ferramenta de resistência ao longo de sua história.


Ao conectar o passado ao presente, a fundação não apenas resgatou nomes fundamentais do período, mas também jogou luz sobre a nova geração de designers que, atualmente, reinterpreta esse legado.

Grand Hotel Nilufar

A Nilufar Depot foi transformada no Grand Hotel Nilufar, uma instalação que recriou a atmosfera de um hotel de luxo através de ambientes cuidadosamente curados, incluindo uma suíte e uma área externa. A mostra apresentou interiores fictícios que integraram peças de designers contemporâneos, como Bethan Laura Wood e o duo David/Nicolas, ao mobiliário histórico. Mas a grande marca da Nilufar foi, novamente, a valorização do vintage, elevando peças das décadas de 1950 e 1960 ao posto de ícones atuais.

Essa curadoria refinada foi destacada por Pedro Ariel, diretor de relacionamento e conteúdo da CASACOR, que pontuou o papel da galeria em redescobrir talentos e estilos esquecidos. Segundo Ariel, "a marca tem um grande apreço pelo design brasileiro; esse ano, por exemplo, teve muito Scapinelli. Gosto muito que ela trouxe a Gabriella Crespi, que é uma designer italiana que trabalha com cana-da-índia, umas peças que eram consideradas bregas até pouco tempo... esse é o grande mérito da Nilufar: fazer uma arqueologia do design mundial, trazer à tona peças que estavam esquecidas".

Grand Hotel Nilufar - MDW 2026

Grand Hotel Nilufar - MDW 2026 (Marina Pires/CASACOR)

Over and Over- 6AM

A Piscina Romano serviu de cenário para o estúdio milanês 6AM investigar o vidro através da repetição e da escultura. A escolha do local criou um contraste direto entre a arquitetura histórica e a transparência das peças, transformando o ambiente em uma galeria imersiva.


A exposição apresentou lançamentos como a luminária Paysage em nova tonalidade e a coleção de mobiliário Float. O destaque, no entanto, foram os cubos de vidro soprado criados originalmente para o desfile de verão 2026 da Bottega Veneta. Exibidos como protagonistas, os cubos reforçaram o vidro como uma estrutura escultórica fundamental no design contemporâneo.

Over and Over- 6AM - MDW 2026

Over and Over- 6AM - MDW 2026 (Marina Pires/CASACOR)

The Eames House

Na Triennale de Milano, a exposição "The Eames Houses" revisitou a icônica residência de 1949 projetada por Ray e Charles Eames. A mostra explorou a filosofia do casal e como a casa, parte do programa Case Study Houses, tornou-se um marco de funcionalidade para o design moderno.


Através de documentos e fotografias, a exibição destacou a estrutura de aço e vidro, além do papel fundamental de Ray Eames na estética dos interiores. A curadoria mostrou como eles humanizaram a estrutura industrial com objetos pessoais e coleções. Para quem passar por Los Angeles, vale a pena visitar a casa original em Pacific Palisades, que permanece preservada e aberta ao público.

The Eames House - MDW 2026

The Eames House - MDW 2026 (Marina Pires/CASACOR)

Interni Venosta

A Interni Venosta, marca de mobiliário de luxo capitaneada pelos fundadores do prestigiado Dimore Studio, inaugurou a instalação "Interno Italiano" durante a temporada de Milão. O cenário escolhido foi o Palazzo Olivazzi, uma residência histórica que, até então, nunca havia sido aberta ao público.


O projeto promoveu um diálogo direto entre a arquitetura original da villa, assinada pelo mestre Osvaldo Borsani, e o mobiliário contemporâneo da marca, celebrando o ápice do design do pós-guerra sob uma perspectiva atual.


Segundo a análise de Ana Clara Schick, curadora-assistente da CASACOR, o diferencial do trabalho de Borsani residia na integração total dos ambientes através do mobiliário embutido. "O arquiteto trabalhava com muita marcenaria sob medida, então não se viam peças soltas; ele resolvia tudo no mobiliário embutido", explicou. Schick pontuou ainda que Borsani utilizava intervenções estratégicas, como aberturas altas para marcar a transição dos espaços, criando um cenário onde a própria arquitetura guiava a percepção de quem percorria a casa.


A abertura inédita do Palazzo Olivazzi revelou-se um dos pontos altos da Semana de Design, permitindo que a arquitetura servisse como um cenário vivo para as peças da Interni Venosta. Ao posicionar o design dentro de uma estrutura tão emblemática, a instalação proporcionou ao público uma nova forma de perceber o mobiliário, destacando como a história e a sofisticação contemporânea podem coexistir em harmonia.

Aesop

Em Brera, a Aesop apresentou a instalação "The Factory of Light" no claustro da Santa Maria del Carmine. Criado com o arquiteto Rodney Eggleston, o projeto utilizou materiais reaproveitados para explorar a luz de forma emocional em uma cenografia que remetia a uma Milão imaginada.


O grande destaque foi o lançamento da primeira luminária da marca, reforçando sua forte ligação com o design. Vale lembrar que a Aesop já teve presença marcante no Brasil com uma loja em São Paulo projetada por Paulo Mendes da Rocha e o escritório Metro Arquitetos, embora a marca não opere mais no país atualmente.

Aesop- MDW 2026

Aesop- MDW 2026 (Marina Pires/CASACOR)

Louis Vuitton

Na MDW 2026, a Louis Vuitton ocupou o Palazzo Serbelloni com uma exposição que conectou o mobiliário histórico à coleção Objets Nomades. O percurso destacou o legado de Pierre Legrain, com reedições de peças dos anos 1920, ao lado de criações contemporâneas do Estúdio Campana e Raw Edges.


Um ponto marcante foi a homenagem à designer Charlotte Perriand, consolidando um movimento relevante no setor. Após a Saint Laurent resgatar o trabalho dela no ano passado, a Louis Vuitton seguiu o mesmo caminho, reforçando o empenho das marcas de moda em dar o devido crédito a uma designer que, por décadas, teve seu trabalho ofuscado.


A mostra também celebrou a parceria de longa data com os brasileiros do Estúdio Campana, que apresentaram a futurista cadeira Cocoon Dichroic. A presença deles reafirmou a importância do design brasileiro no cenário de luxo global. O percurso encerrou com o baú de vitrais de Pharrell Williams, unindo o resgate histórico à visão atual da marca.

Louis Vuitton - MDW 2026

Louis Vuitton - MDW 2026 (Marina Pires/CASACOR)

When Apricots Blosoom

Por fim, o Uzbequistão fez sua estreia oficial com a exposição "When Apricots Blossom", no Palazzo Citterio. Com curadoria do arquiteto Kulapat Yantrasast, a mostra usou o design para responder à crise ecológica da região do Mar de Aral, unindo memória cultural e resistência ambiental.


O percurso focou em pilares da vida uzbeque: têxteis, comida e abrigo. O destaque foi a colaboração entre artesãos locais e 12 designers internacionais como Bethan Laura Wood, Fernando Laposse e Raw Edges. Eles reinterpretaram objetos ancestrais e carimbos de pão tradicionais usando materiais nativos, como seda e cerâmica.

When Apricots Blosoom - MDW 2026

When Apricots Blosoom - MDW 2026 (Marina Pires/CASACOR)