O modernariato evidencia como o design brasileiro do século XX se transforma em patrimônio cultural e ganha novas leituras no morar contemporâneo
Publicado em 5 de abr. de 2026, 8:00

Quarto Suna Reveev - Osvaldo Segundo & Arquitetos Associados. Projeto da CASACOR Santa Catarina 2021. (Fabio Jr. Severo/CASACOR)
O modernariato se insere em um território onde o design ultrapassa sua função utilitária e passa a ser compreendido como documento de época. No Brasil, esse movimento está diretamente ligado à produção moderna que floresceu entre as décadas de 1940 e 1970, período em que arquitetos e designers passaram a investigar novas formas de habitar, conciliando estética, técnica e identidade local.
Tufi Mousse Arquitetura - Casa Rumo. Projeto da CASACOR São Paulo 2025. (Denilson Machado/CASACOR)
Mais do que resgatar objetos do passado, o modernariato propõe uma leitura atual sobre essas criações, reconhecendo nelas valores que permanecem relevantes. Ao observar esse universo, percebe-se como o design brasileiro construiu uma linguagem própria, marcada pelo uso da madeira, pelo desenho orgânico e por uma relação sensível com o território. Esse repertório segue presente, seja em acervos, galerias ou em projetos residenciais que incorporam essas peças ao cotidiano.
O termo modernariato tem origem no italiano e se refere a objetos modernos que, com o tempo, passam a ser valorizados como peças de coleção. Diferente das antiguidades tradicionais, que remontam a períodos mais distantes, o modernariato abrange produções do século XX que já carregam relevância histórica, estética e cultural. Trata-se de uma forma de reconhecer o design como expressão de uma época.
Liana Lamare Arquitetura e Interiores - Apartamento do Comandante. Projeto da CASACOR Rio Grande do Sul 2025. (Cristiano Bauce/CASACOR)
No contexto brasileiro, o modernariato está fortemente associado ao mobiliário modernista, que se destacou pela inovação formal e pelo uso de materiais locais. Essas peças, muitas vezes produzidas em escala limitada, apresentam soluções que combinam ergonomia, leveza e sofisticação. Ao longo do tempo, deixam de ser apenas objetos de uso cotidiano para se tornarem testemunhos de uma fase importante da história do design no país.
A consolidação do modernariato no Brasil está diretamente ligada ao desenvolvimento do design moderno, impulsionado por transformações culturais no século XX. Nesse período, arquitetos e designers passaram a repensar o mobiliário a partir de uma perspectiva mais alinhada ao contexto brasileiro, considerando clima, materiais disponíveis e modos de habitar. O resultado foi a criação de peças que conciliavam funcionalidade e expressão estética.
Tahinara Sanferry - Gabinete D'Ella. Projeto da CASACOR Sergipe 2025. (Gabriela Daltro/CASACOR)
Nomes como Sergio Rodrigues, Joaquim Tenreiro e Lina Bo Bardi foram fundamentais nesse processo, desenvolvendo mobiliários que se tornaram referências. Suas criações exploravam a madeira de forma inovadora, com desenhos que valorizavam a estrutura e a ergonomia. Hoje, essas peças ocupam posição central no universo do modernariato, sendo amplamente reconhecidas por sua relevância.
Com o passar das décadas, muitas dessas criações passaram a ser vistas sob uma nova perspectiva. Móveis e objetos decorativos se transformaram itens de coleção, deslocando-os do uso estritamente funcional para um campo que dialoga com arte, memória e mercado.
Izabela Pagani - Ambiente VOLTA. Projeto da CASACOR Rio Grande do Sul 2025. (Cristiano Bauce/CASACOR)
No Brasil, o interesse pelo design colecionável tem crescido, impulsionado por galerias, feiras e um público mais atento à história do mobiliário nacional. Peças que antes faziam parte do cotidiano passam a ser disputadas em leilões e exposições, evidenciando como o modernariato se estabelece como um segmento relevante.
A valorização no modernariato envolve múltiplos fatores que ajudam a definir a importância e o valor de cada peça no mercado. Entre eles, estão:
A assinatura de um designer reconhecido é um dos principais critérios dentro do modernariato. Peças criadas por nomes importantes tendem a concentrar maior interesse, especialmente quando representam momentos significativos de sua trajetória ou da história do design brasileiro.
A quantidade de exemplares disponíveis influencia diretamente o valor de uma peça. Mobiliários produzidos em pequena escala ou que não estão mais em fabricação se tornam mais raros, aumentando sua relevância.
A integridade do objeto também é determinante. Peças bem conservadas, com estrutura original preservada, tendem a ser mais valorizadas. Por outro lado, intervenções e restaurações impactam diretamente no valor do item.
Mesmo inserido no campo do colecionismo, o modernariato mantém uma relação próxima com o cotidiano. Muitas dessas peças continuam sendo utilizadas em contextos domésticos, equilibrando passado e presente. Sua presença traz uma camada de significado que vai além da estética, conectando o ambiente a uma narrativa histórica.
Gabriel Fernandes - Casa de Novela. Projeto da CASACOR São Paulo 2025. (Denilson Machado/CASACOR)
Ao integrar o modernariato na decoração, os interiores ganham densidade e identidade. As peças dialogam com elementos contemporâneos, criando composições que valorizam contrastes. Assim, o design passa a atuar como elemento de memória e expressão, revelando novas possibilidades decorativas.
Roberto Franco - Estudio 7. Projeto da CASACOR Bolívia 2025. (Alvaro Mier/CASACOR)