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A fragilidade do (in)útil define o mobiliário artístico de Francisco Nuk

Em entrevista exclusiva para a CASACOR, Francisco Nuk reflete sobre a importância da inutilidade e explica como chegou às obras exibidas na SP-Arte

Por Yeska Coelho

Publicado em 7 de mai. de 2022, 7:00

08 min de leitura
A fragilidade do (in)útil define o mobiliário artístico de Francisco Nuk

(Divulgação)

Exposição Francisco Nuk

(Divulgação/CASACOR)

O design de móveis e a arte andam lado a lado. Um móvel pode ser uma obra de arte e uma obra de arte, por sua vez, também pode ser uma peça de mobiliário. Mas há uma característica que distancia essas duas coisas: a primeira busca pela praticidade e funcionalidade, enquanto a outra pode ser simplesmente... inútil! No livro "A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera, a filosofia do peso entra como tema central do romance e uma das conclusões que se pode chegar é que levar a vida com "peso" pode ser negativo, mas que o mesmo acontece com a leveza em excesso. Existe um peso na busca pela utilidade, e uma premissa de que tudo precisa de uma funcionalidade. É justamente um contraponto a isso que o artista Francisco Nuk propõe – ou como ele mesmo chama "a revolução da inutilidade".
Exposição Francisco Nuk

(Divulgação/CASACOR)

Marceneiro e artista, Nuk apresentou junto à Galeria Lume um projeto artístico que explora a fragilidade do útil em relação ao inútil na SP-Arte 2022. "Fazer algo que é útil não faz sentido para mim", explica o artista.

Quem é Francisco Nuk?


Exposição Francisco Nuk Filho de pai artista e mãe galerista, Francisco Nuk nasceu em 1990 em Belo Horizonte, e tem contato com o meio artístico desde que se entende por gente. Os pais, Sérgio Martins Machado e Paulina Ribeiro De Oliveira, se conheceram na escola de Belas Artes de Belo Horizonte, e no mesmo ano em que Nuk nasceu, a mãe abriu uma galeria de arte contemporânea – que acabou fechando depois de um tempo. Hoje, ela possui uma casa de eventos culturais. O pai segue como artista. Apesar das influências dentro de casa, tanto os pais como a escola não incentivaram o jovem Francisco a seguir carreira nas Belas Artes. "Eles (a escola) tinham certos receios. Queriam que eu fizesse engenharia ou coisa do tipo".
Exposição Francisco Nuk

(Divulgação/CASACOR)

Na escola, suas matérias favoritas eram história, arte e educação física. Decidiu seguir na faculdade de Educação Física, já que esportes também eram uma paixão. Ele se formou, mas nunca atuou na área. Durante o ensino médio, foi estudar na Nova Zelândia, e ficou um ano e sete meses se aprofundando em marcenaria fina. Quando se formou e voltou, em 2009, queria continuar explorando as técnicas e materiais aprendidos. "Eu me apaixonei de fato pelo ofício. É um leque de possibilidades e de formas diferentes".
Exposição Francisco Nuk

(Divulgação/CASACOR)

No meio do caminho, enquanto ainda cursava Educação Física, foi morar na Argentina, na casa de um marceneiro, e sentia que a marcenaria de alguma forma sempre o seguia. Depois de formado, viveu um período na Austrália, onde trabalhou pela primeira vez como marceneiro de fato.
Exposição Francisco Nuk

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Tanto tempo trabalhando com o que é considerado padrão de um mobiliário trouxeram ao lado artístico de Nuk uma inquietação. Ao voltar para o Brasil, começou a ajudar o pai na galeria, mas queria seguir o próprio caminho e explorar as próprias formas.

A revolução da inutilidade


Exposição Francisco Nuk

(Divulgação/CASACOR)

Cansado de focar suas criações na utilidade, Nuk fez uma reflexão sobre o antagonismo e chegou a conclusão de que a arte pode ser inútil. Apesar da frase ser, de certa forma, "pesada", o peso está na conotação negativa que o termo inútil possui – injustamente, na visão do artista. [quote author="Francisco%20Nuk"]O inútil, no final das contas, é sobre uma perspectiva. Cada um tem a sua.[/quote] Ele decidiu pegar dois objetos que, segundo ele, são os que mais se aproximam da forma humana: uma gaveta e um guarda-roupa. Assim como os móveis, nós seres humanos também guardamos coisas, e estamos sempre buscando a utilidade e condenando a procrastinação. "Eu peguei aquele objeto e fui entortando e tirando assim a utilidade que ele teria. No final das contas, essa gaveta tem o formato de uma mobília, mas não abre. Quando eu faço uma curva e a coloco de cabeça para baixo, ela pode até abrir, ela não deixa de ser gaveta, mas agora ela é inútil. A sacada acaba sendo até que simples".
[quote author="Francisco%20Nuk"]Quando eu questiono a minha utilidade, é porque eu não estou satisfeito com ela. Se eu não estou satisfeito com isso, o oposto é a inutilidade. De alguma forma, precisamos buscar o inútil para encontrar a transformação e chegar a um lugar mais confortável.[/quote] Foi necessária muita reflexão sobre a inutilidade e entender que ela não precisa ser algo negativo. "Se alguém virar e falar 'você é um inútil', dentro dessa nossa sociedade, pode ser um elogio". Para o artista, a inutilidade é uma forma de encontrar novos caminhos e não seguir os de sempre, já que o mundo está em constante mudança. A sua exposição faz esse chamado, de que a pausa para o ócio também é importante e nos ajuda a guiar novos caminhos.

O interior das gavetas...


Exposição Francisco Nuk

(Divulgação/CASACOR)

O artista utilizou o surrealismo para chegar no inútil, mas não se considera um "artista surrealista". Ele conta que quando começou a entortar as gavetas e o guarda-roupa, não estava focado no movimento artístico, mas ele veio quase que por acidente. "Quando eu comecei a questionar essa utilidade, eu me via como esse armário. É uma analogia do próprio ser humano que também coloca tudo em suas 'gavetas'".