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Milan Design Week 2025 dedica um olhar especial à trajetória de
Charlotte Perriand (1903–1999), uma das figuras mais ousadas e inovadoras do design do século 20. Visionária, Perriand rompeu fronteiras entre forma e função, arte e indústria, Oriente e Ocidente. Sua carreira foi marcada por colaborações com
Le Corbusier e
Pierre Jeanneret, e por uma produção autoral que combinava racionalismo moderno com influências orgânicas, artesanais e culturais. Ao longo de quase sete décadas de atuação, ela deixou um legado de peças atemporais e uma
abordagem sensível ao habitar que seguem inspirando gerações de arquitetos e designers em todo o mundo.
Charlotte Perriand. (Reprodução/CASACOR)
Nesta edição da principal semana de design do mundo, o impacto de sua obra ganha
destaque em três frentes distintas e complementares: a
Saint Laurent resgata e realiza peças inéditas da designer; a
Louis Vuitton apresenta uma coleção de têxteis baseada em seus desenhos gráficos originais; e a
Cassina celebra os 60 anos da coleção que editou com Perriand, Le Corbusier e Jeanneret — com direito a novas versões das peças mais cobiçadas e uma instalação performática do estúdio Formafantasma. Um
tributo multifacetado, que revisita o passado para pensar o futuro do design. Confira os destaques de cada uma das exposições.
1. Saint Laurent - Charlotte Perriand
No Padiglione Visconti, a Saint Laurent apresenta uma exposição com
quatro peças de mobiliário desenhadas por Charlotte Perriand entre 1943 e 1967. Até então, esses móveis existiam apenas como protótipos ou esboços e foram agora produzidos pela primeira vez em escala real, sob curadoria de Anthony Vaccarello.
A mostra acontece de 8 a 13 de abril. Durante esse período, as peças estarão disponíveis para encomenda em
edições limitadas. Na Piazza San Babila, o quiosque Saint Laurent Editions apresenta um volume fotográfico dedicado à obra de Perriand, além de um catálogo da coleção.
2. Louis Vuitton – Objets Nomades
No Palazzo Serbelloni, a Louis Vuitton apresenta uma nova edição da coleção
Objets Nomades, com móveis e objetos de decoração assinados por nomes como
Estúdio Campana,
Patricia Urquiola, India Mahdavi e Charlotte Perriand. Este ano, a marca celebra especialmente o trabalho da designer francesa com uma
coleção inédita de têxteis, que revisita padrões gráficos desenvolvidos por ela nos anos 1930.
(Arquivo Charlotte Perriand/CASACOR)
As almofadas e cobertores trazem de volta motivos criados por Perriand em seu primeiro apartamento, na Place Saint-Sulpice, em Paris, onde ela experimentava materiais industriais como o
cromo e o
níquel, combinados a tecidos acolhedores e padrões abstratos. Um dos destaques é o motivo de montanha que decorava sua banqueta, reinterpretado agora em nova escala e composição cromática. Outros padrões foram
resgatados de antigos cadernos de esboço, numa coleção que revela o lado gráfico e pictórico de sua criação.
“Todos os seus designs ilustram a
mudança nas artes decorativas em direção ao modernismo”, afirma sua filha, Pernette Perriand-Barsac, que participou do projeto e já havia colaborado com a Louis Vuitton em 2013 na reconstrução da casa modular Maison au Bord de l’Eau, de 1934, projetada por Perriand como um refúgio à beira-mar, acessível e elegante. A Louis Vuitton reconstruiu a obra há 12 anos e agora a apresenta novamente como um
tributo ao modernismo e à inventividade de sua autora.
3. Cassina – Staging Modernity
A Cassina celebra os 60 anos da produção da coleção Le Corbusier, Pierre Jeanneret, Charlotte Perriand com a instalação
Staging Modernity, criada pelo estúdio Formafantasma. A mostra, no Teatro Lirico Giorgio Gaber, propõe uma
imersão sensorial e crítica nas contradições entre os ideais modernistas e as urgências contemporâneas.
Além da instalação visual, uma performance teatral dirigida por Fabio Cherstich dá vida a
textos inéditos dos pensadores Emanuele Coccia, Andrés Jaque e Feifei Zhou. Fragmentando e reinterpretando a obra do trio modernista, o projeto convida o público a
refletir sobre como o racionalismo do século 20 pode dialogar com uma nova ecologia — mais fluida, natural e inclusiva. O ponto de partida desta celebração é a trajetória da coleção Le Corbusier, Pierre Jeanneret, Charlotte Perriand, editada pela Cassina desde 1965 — ainda com os três designers em vida. A empresa italiana foi
pioneira ao transformar peças originalmente artesanais, apresentadas no Salon d’Automne de 1929, em móveis de produção industrial sem perder a fidelidade aos desenhos originais. Ao longo das décadas, a coleção tornou-se
símbolo da internacionalização da marca e referência absoluta no design moderno.
Para marcar o aniversário de 60 anos, a Cassina lança uma edição limitada dos quatro primeiros modelos da coleção: a poltrona LC1 (Fauteuil dossier basculant), as poltronas LC2 e LC3 (Fauteuil Grand Confort, petit e grand modèle) e a chaise-longue LC4 (Chaise longue à réglage continu). Essas peças clássicas ganham novas versões em
tons vibrantes de vermelho, azul e verde, com estruturas metálicas polidas e acabamento em veludo
mohair ton-sur-ton ou couro autoportante. Desenvolvidas com materiais circulares, as edições fazem parte da linha “durable” da marca, reafirmando o compromisso da Cassina com práticas mais sustentáveis. O desenvolvimento dessas novas versões contou com a colaboração da Fondation Le Corbusier e dos herdeiros de Perriand e Jeanneret, garantindo
fidelidade conceitual e histórica. Disponíveis para encomenda até setembro de 2026, as peças reafirmam a atualidade das ideias do trio e o papel central da cor como elemento expressivo no design modernista.