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Decoração

Objetos afetivos e tecnologia se encontram nos ambientes da CASACOR Goiás 2026

Em meio a curvas orgânicas, louceiros e pisos de caco, arquitetos apostam na emoção como protagonista dos espaços sem ignorar automação contemporânea

Por Redação

Publicado em 15 de mai. de 2026, 16:56

10 min de leitura
Vanessa Figueredo - Alma da Casa. Projeto da CASACOR Goiás 2026.

Vanessa Figueredo - Alma da Casa. Projeto da CASACOR Goiás 2026. (Edgard César/CASACOR)

Existem memórias da casa de infância que insistem em nos revisitar: o desenho de um azulejo, a textura de uma madeira envelhecida ou até a cor de um armário capaz de lembrar a cozinha da avó. Na CASACOR Goiás 2026, que neste ano propõe o tema “Mente e Coração”, três ambientes se destacam justamente por transformar essas lembranças em espaços cheios de significado — e por mostrar que tecnologia e afeto não são opostos, mas aliados na arte de morar.

Cozinha com memória afetiva

Isis Dallarmi - Refúgio Sereno. Projeto da CASACOR Goiás 2026.

Isis Dallarmi - Refúgio Sereno. Com 67,70 m², o projeto revela um ambiente sensorial onde cozinhar e conviver se transformam em experiências de permanência. A integração entre living, cozinha gourmet e despensa flexível desenha uma vivência fluida e acolhedora. Materiais naturais, tons terrosos e design orgânico conduzem a atmosfera, em um equilíbrio sutil entre técnica e emoção. Inspirado em Mente e Coração, o projeto traduz a união entre funcionalidade e afeto, inovação e tradição: um espaço pensado para encontros e memórias. (Edgard César/CASACOR)

No ambiente assinado pela arquiteta Isis Dallarmi, a cozinha gourmet deixa de ser apenas território do preparo de alimentos para se tornar um verdadeiro Refúgio Sereno, como foi batizado. A aposta está nas formas curvas e orgânicas, que, segundo a profissional, “permitem que o espaço seja percebido de maneira menos rígida e mais acolhedora, convidando as pessoas a vivenciarem o ambiente de forma livre, fluida e descontraída”.

Isis Dallarmi - Refúgio Sereno. Projeto da CASACOR Goiás 2026.

Isis Dallarmi - Refúgio Sereno. Projeto da CASACOR Goiás 2026. (Edgard César/CASACOR)

Entretanto, é um objeto específico que rouba a cena e sintetiza o conceito do espaço: o louceiro amarelo com ladrilho quadriculado. “Seu visual maximalista, a composição de objetos decorativos e sua tonalidade marcante despertam memória afetiva e conexão emocional, remetendo à sensação de um espaço já vivido ou imaginado em algum momento da infância”, explica Isis.


No Refúgio Sereno, a tecnologia existe, mas não compete com a emoção. Aparece de forma sutil, na música distribuída, nos eletrodomésticos de última geração, na iluminação integrada. No entanto, funciona como suporte para que os momentos de convivência fluam com praticidade, sem roubar a cena do aconchego.

Casa 1961: ano que virou narrativa

Clécio Lourenço e Gervásio Milaneze - CASA 1961. Projeto da CASACOR Goiás 2026.

Clécio Lourenço e Gervásio Milaneze - CASA 1961. Em sua quinta participação, a dupla Clécio Lourenço e Gervásio Milaneze assina uma casa de 142m², uma ode à trajetória de Pedro Torminn Borges e Vera Lúcia Oliveira Borges, fundadores do Grupo Itapoan e pioneiros no morar goiano. O design atemporal abraça o acervo pessoal da família e as obras de Siron Franco, criando diálogo entre gerações. Sob o teto pintado por Ruben Brito, o ambiente de tons amadeirados opera com precisão ao evocar a memória afetiva. Aqui, a lembrança se faz arquitetura — um espaço de encontros e de afeto. (Edgard César/CASACOR)

Já o escritório Lourenço Milaneze, em sua quinta participação na mostra, aposta em uma estratégia diferente ao decidir contar uma história de família. O ambiente Casa 1961 não nasceu de uma estética, mas de uma data: o ano de fundação do Grupo Itapoan por Pedro Torminn Borges e Vera Lúcia Oliveira Borges.


Com 142 metros quadrados, o espaço incorpora peças do acervo pessoal do casal, obras de arte assinadas por Siron Franco e mobiliário de designers como Jader Almeida e Maurício Arruda. “O projeto traduz em arquitetura a passagem do tempo e a construção de um legado ligado ao design, à cultura do morar e à valorização das relações humanas”, destacam os designers e idealizadores do ambiente, Clécio Lourenço e Gervásio Milaneze.

Clécio Lourenço e Gervásio Milaneze - CASA 1961. Projeto da CASACOR Goiás 2026.

Clécio Lourenço e Gervásio Milaneze - CASA 1961. Projeto da CASACOR Goiás 2026. (Edgard César/CASACOR)

No teto do hall social, uma pintura do artista regional Ruben Brito apresenta o tsuru em voo, ave que, na cultura japonesa, simboliza longevidade e continuidade. Um gesto poético que estabelece, de imediato, o tom do ambiente: aqui, o tempo não é apagado, mas celebrado.

O piso na Alma da Casa

Vanessa Figueredo - Alma da Casa. Projeto da CASACOR Goiás 2026.

Vanessa Figueredo - Alma da Casa. O projeto traduz a cozinha como o coração do lar em uma proposta acolhedora, carregada de significa e memórias. Inspirado na estética mediterrânea, o ambiente tem estética leve e sensorial, com materiais naturais, tons neutros, cerâmicas e madeira, além da aplicação pontual de verde na composição. A integração com o quintal acontece de forma fluida, funcionando com uma extensão do espaço e abrigando, de maneira discreta, a lavanderia e o banho pet, incorporados ao cotidiano sem interferir na leitura do projeto. Em 36 m², a proposta revela uma cozinha acolhedora, real e pensada para ser vivida. (Edgard César/CASACOR)

Enquanto isso, no ambiente criado pela arquiteta Vanessa Figueiredo e denominado como ‘Alma da Casa’, a estética mediterrânea convida à permanência. Tons neutros, terrosos, cerâmicas e madeira criam uma atmosfera que, segundo a profissional, difere das cozinhas modernas “que às vezes priorizam excessivamente a imagem limpa e tecnológica”.

Vanessa Figueredo - Alma da Casa. Projeto da CASACOR Goiás 2026.

Vanessa Figueredo - Alma da Casa. Projeto da CASACOR Goiás 2026. (Edgard César/CASACOR)

O grande protagonista, no entanto, está sob os pés do visitante. O piso de caco foi o material escolhido por Vanessa para sintetizar o conceito da mostra, Mente e Coração. “Sua paginação irregular, as variações de tonalidade e o aspecto artesanal trazem uma estética viva, longe da padronização industrial. É um material que evoca memória, remete às casas antigas, aos espaços de convivência e ao tempo vivido com mais calma”, afirma.

Vanessa Figueredo - Alma da Casa. Projeto da CASACOR Goiás 2026.

Vanessa Figueredo - Alma da Casa. Projeto da CASACOR Goiás 2026. (Edgard César/CASACOR)

Curiosidades afetivas não faltam no ambiente: um quadro abriga um azulejo original resgatado de uma casa antiga; o lambril do teto foi executado com rodapés de polipropileno em solução criativa; e o banho pet, inspirado no próprio cachorro da designer, Zeus, aparece com uma foto do animal – um lembrete de que casa também é um laço de amor com todos os moradores, inclusive os de quatro patas.

Tecnologia e memória

Se há um fio condutor entre os três ambientes, é a recusa em tratar tecnologia e memória afetiva como opostos. Isis Dallarmi resume a filosofia: “acredito que tecnologia e design devem trabalhar juntos para facilitar a vida cotidiana, enquanto a arquitetura traz a poesia necessária para transformar os momentos simples em experiências memoráveis”.


Vanessa Figueiredo foi além e optou por não incluir automação integrada em seu projeto mediterrâneo. “O excesso de comandos contemporâneos entraria em conflito com a essência da nossa cozinha”, justifica. A exceção fica por conta da sonorização, acionada por tablet ou celular, e dos eletrodomésticos escolhidos a dedo e definidos pela profissional por sua “robustez visual”, que dialoga com os materiais naturais.


O resultado, nos três casos, é o mesmo: espaços que acolhem sem avisar, que despertam memórias com nostalgia, ainda que com tecnologia. Afinal, para os idealizadores da Casa 1961, “o verdadeiro luxo está nas histórias, nos encontros e nos vínculos que atravessam gerações”.