Sob diversas perspectivas do cotidiano, a mostra apresenta informações relevantes sobre o assunto e uma visão poética por meio das artes
Publicado em 23 de out. de 2025, 12:44

Sob diversas perspectivas do cotidiano, a mostra apresenta informações relevantes sobre o assunto e uma visão poética por meio das artes (CASACOR/CASACOR)
Elemento fundamental para a vida, a água é o tema da recém-inaugurada exposição em cartaz na Japan House São Paulo. E, para um país insular como o Japão, o assunto é ainda mais relevante. Compostas por inúmeros rios e lagos, as águas do país oriental não apenas sustentam a vida cotidiana, mas também exercem influência sobre a economia, tradição, ciência e tecnologia, assim como na espiritualidade das pessoas. Essa é a abordagem da mostra Fluxos – o Japão e a água.
Com curadoria de Natasha Barzaghi Geenen — que também é diretora cultural da instituição —, exposição apresenta a água a partir de diferentes perspectivas, como a infraestrutura das cidades e do meio ambiente, o aprimoramento da qualidade do abastecimento, a importância para a espiritualidade e tradições japonesas, além de um olhar poético sobre o líquido precioso. E um detalhe curioso é que a expografia também está relacionada à água, precisamente ao seu movimento centrífugo, que convida o público a explorar um ambiente de formas arredondadas com texturas e iluminação que parecem deixar a Japan House submersa.
Exposição Fluxos – o Japão e a água, na Japan House (Marina Melchers/CASACOR)
O recorte da infraestrutura destaca o Canal Subterrâneo de Escoamento da Área Metropolitana de Tóquio, considerado a maior edificação de desvio subterrâneo de inundações do mundo. O canal foi projetado para auxiliar parte da cidade durante as estações chuvosas e em casos de tufões, armazenando temporariamente a água excedente para posterior bombeamento abaixo do nível do solo ao invés de transbordar.
As águas termais, bastante famosas no Japão, também ganharam destaque especial na exposição, com explicações sobre características e propriedades distintas de cada uma. Os visitantes poderão contemplar informações sobre a composição e os altos valores nutritivos, além da biodiversidade e minerais encontrados nas águas termais japonesas.
Outra abordagem são os festivais e rituais que têm a água como elemento central: o Uchimizu (quando os japoneses espalham água pelos jardins e ruas como forma de higienizar os espaços, mas também cumprindo uma função ritualística e contemplativa), Temizu e Mizugori (rituais de purificação realizados, geralmente, na entrada de templos e santuários no Japão, em que as pessoas lavam mãos e boca em água corrente com a ajuda de uma concha hishaku), Takigyō (treinamento budista milenar que consiste em meditar embaixo de uma cachoeira para purificar e fortalecer corpo e mente), Mikumari Jinja (santuário xintoísta ligado à divindade da água, que simboliza a distribuição e o compartilhamento desse recurso), e o festival Okinami Tairyō, realizado anualmente na cidade de Anamizu, na província de Ishikawa, onde os moradores rezam por segurança no mar e por sorte na temporada de pesca.
Para despertar um olhar poético e sensorial, a curadora selecionou três obras de arte que evidenciam a relação profunda da sociedade japonesa com a água. A primeira e mais antiga é uma gravura no estilo ukiyo-e ("imagem do mundo flutuante", em japonês) feita pelo artista Hiroshige Utagawa, em 1857, como parte de uma série de 119 gravuras que retratam cenários da capital Edo, atual cidade de Tóquio. O estilo ficou conhecido por representar temas cotidianos, paisagens e atores de teatro Kabuki a partir de impressões feitas em blocos de madeira esculpida.
Obra Buloklok, da artista Tomoko Sauvage, na Japan House (Marina Melchers/CASACOR)
Já a artista contemporânea Tomoko Sauvage apresenta a obra Buloklok, instalação que retoma a ideia de uma clepsidra — relógio de água considerado o instrumento de cronometragem mais antigo do mundo —, cujos padrões sonoros lembram a respiração de seres vivos. Esculturas com formatos semelhantes a conchas e búzios estão submersos em um grande aquário com água e um motor estimula a formação de bolhas, cujos movimentos são captados por hidrofone e expandidos sonoramente por alto-falantes. Criada inicialmente por Sauvage em 2022, a instalação de 2025 foi pensada especialmente para a mostra na Japan House.
Instalação Sans Room, da artista Shiori Watanabe, na Japan House (Marina Melchers/CASACOR)
A terceira obra em destaque é a instalação Sans Room, da artista Shiori Watanabe, que desenvolveu um ecossistema artificial de circulação microbiana por meio da água. O projeto apresenta uma estufa hidropônica de cultivo de arroz, conectada a tanques de água por meio de tubos em uma sala com iluminação de cultivo ultravioleta, trazendo uma reflexão sobre espaços isolados, considerados vazios, mas que concentram vida em seus interiores.
“Concebemos essa exposição justamente pensando que os debates sobre o uso consciente de recursos naturais estariam ainda mais em pauta no momento da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) em novembro. Nossa ideia é estender essas discussões, apresentando hábitos e soluções que o Japão tem encontrado para gerenciar recursos hídricos há anos. Além de muito conteúdo informativo, as obras de arte ocupam o centro da exposição e reforçam com poesia o simbolismo e importância da água. A própria expografia foi pensada a partir do movimento do pingo de água ressoando. Esperamos que esta mostra seja um convite à reflexão e à contemplação”, conclui a curadora.
Serviço:
Exposição Fluxos – o Japão e a água
Período: 21 de outubro de 2025 a 1° de fevereiro de 2026
Local: Japan House São Paulo, 2º andar – Av. Paulista, 52 - São Paulo/SP
Horário de funcionamento: terça a sexta, das 10h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h. Entrada gratuita. Reservas online antecipadas (opcionais) no site.