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Arte

De um incômodo, a arte: Carol Ambrósio faz dos objetos da casa uma reflexão sobre o feminino

Carol Ambrósio passou décadas cercada de arte antes de descobrir a sua própria voz neste mercado — esta que chega agora à CASACOR São Paulo e ao acervo inaugural do Instituto CASACOR

Por Giovanna Jarandilha

Publicado em 23 de jun. de 2026, 16:21

08 min de leitura
Totens da série Verdades, de Carol Ambrósio, no ambiente "Jardim das Verdades", assinado por Maria Fernanda Marques na CASACOR São Paulo 2026.

Totens da série Verdades, de Carol Ambrósio, no ambiente "Jardim das Verdades", assinado por Maria Fernanda Marques na CASACOR São Paulo 2026. (Adriana Barbosa/CASACOR)

Antes explicar o que são os totens do Jardim das Verdades, convém dizer o que eles não são: quietos. Altos, feitos de cerâmicas garimpadas, empilhadas até o limite de cada coluna, eles se erguem no jardim de Maria Fernanda Marques na CASACOR São Paulo com uma presença difícil de ignorar. Carol Ambrósio conta o processo de montagem de maneira casual: "Eu fui empilhando, empilhando, aí chegou um momento em que começou a cair. Eu falei: bom, chega. Foi tudo que ela aguentou”.

De um incômodo, a arte: Carol Ambrósio faz dos objetos da casa uma reflexão sobre o feminino

(Bob Wolfenson/CASACOR)

Carol cresceu frequentando a feirinha do MASP desde os doze anos. Seu pai era dono de um antiquário — desses que acumulam bibelôs, pratinhos com cenas galantes, porcelanas de época e objetos que alguém um dia decidiu que eram belos e depois decidiu que não eram mais. Ela cresceu entre eles, sem saber que ali também se formava seu olhar.

De um incômodo, a arte: Carol Ambrósio faz dos objetos da casa uma reflexão sobre o feminino

(Divulgação/CASACOR)

Ela guardou tudo isso no fundo do seu repertório mental e foi trabalhar com moda, e lá permaneceu por dezoito anos. Trabalhava com rendas antigas, tecidos com história, peças que tinham passado por outras mãos antes das dela — um processo que, ela admite, "parecia uma colagem". A técnica voltaria a aparecer, sob outra roupagem, no seu trabalho mais para frente.

Um livro, uma ideia


De um incômodo, a arte: Carol Ambrósio faz dos objetos da casa uma reflexão sobre o feminino

(Divulgação/CASACOR)

Em algum momento entre a moda, uma mudança para o Canadá, um casamento, filhos e uma temporada na China, Carol comprou um livro. Ela não sabe bem dizer o porquê. As imagens a incomodavam — mulheres inseridas em paisagens como se fossem parte do cenário, corpos femininos fundidos com a decoração, o doméstico, a natureza. "As imagens me incomodavam. Eu fui colando muitos objetos na cabeça das mulheres". Ela olhou para as colagens e percebeu que a mulher se confundia com os utensílios domésticos, associada à função de servir. “Isso era um lugar de sem voz”, resume. O incômodo, descobriu mais tarde, seria a matéria-prima para o seu trabalho.


A pandemia chegou e com ela uma sequência de perdas que se acumularam num período de isolamento. Carol estava cercada de peças que havia trazido do antiquário do pai, e, sem muito plano, começou a quebrar cerâmicas, reconstruí-las e empilhá-las. "A arte veio nesse lugar de me expressar. O trabalho veio antes e o entendimento veio depois".

De um incômodo, a arte: Carol Ambrósio faz dos objetos da casa uma reflexão sobre o feminino

(Divulgação/CASACOR)

Os pratinhos com cenas galantes — mulheres em jardins, mulheres em saraus, mulheres sendo olhadas — passaram a receber tigres, leopardos, panteras. "Toda vez que eu via um pratinho com uma cena galante, eu colocava um tigre. Porque eu não aguentava mais ver a mulher daquele jeito". Os bichos aqui assumem a mesma leitura das mulheres do pratinho, só que "esses bichos precisaram gritar muito mais alto para serem escutados”.

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(Divulgação/CASACOR)

A lógica das colunas empilhadas veio da mesma raiz. Cabeça e corpo nunca perfeitamente alinhados; objetos que sobem até o ponto de ruptura; a mulher que segura todos os pratinhos até não conseguir mais. O humor chega sem avisar, até mesmo frente ao tema da CASACOR 2026, “Mente e Coração”. "Eu gosto de brincar com as palavras. Tem essa coisa de o coração estar distante da razão. Meu trabalho tem muito simbolismo da cabeça, que é de onde as ideias saem. E nem sempre a cabeça está conectada com o corpo".


Na CASACOR, os totens da série Verdades ocupam o jardim de Maria Fernanda Marques entre plantas nativas e flores. Há algo preciso nessa localização: são objetos que nasceram para viver dentro de casas — nas vitrines, nas cristaleiras, nas prateleiras de sala — que, aqui, foram instalados do lado de fora, em plena luz do dia. Carol coleta cerâmicas tradicionais que chegam até ela com histórias já acumuladas de outros lares e as quebra, reconstrói, empilha. Numa mostra dedicada ao morar, ela traz para o lado de fora justamente o que o lar costuma guardar com mais cuidado.

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(Divulgação/CASACOR)

As obras de Carol integram agora o acervo inaugural do Instituto CASACOR. Ela, que já tem peças em museus, e recebe a notícia com a mesma tranquilidade com que fala de tudo: "Alguém se conectou com o meu trabalho e vai cuidar bem dele. E a partir disso esse trabalho pode circular de alguma outra maneira, fazendo novos diálogos". O que a interessa, no fundo, não é o lugar, mas o que acontece quando alguém para na frente de uma peça e se lembra de uma memória da avó, ou associa uma pantera ao poder, ou simplesmente acha estranho. "A arte é muito feita pelo olhar do outro. O artista está ali pensando uma coisa, mas o olhar do outro vai para um outro caminho. Eu não tenho controle do que as pessoas vão fazer com isso. Essa é parte da graça".

De um incômodo, a arte: Carol Ambrósio faz dos objetos da casa uma reflexão sobre o feminino

(Divulgação/CASACOR)

Carol está numa nova fase agora. Enquanto decide como, os totens do jardim ficam em pé no Parque da Água Branca até 09 de agosto, quando a mostra fecha suas portas ao público. O incômodo, ela garante, não passou. Só mudou de objeto.