Os mosaicos estão de volta! Técnica milenar ganha novos usos na arquitetura e decoração contemporânea, com destaque no Brasil e no mundo
Publicado em 9 de ago. de 2025, 10:23

Eduardo Baldelomar - Ceiba Camba. Projeto da CASACOR São Paulo 2024. (Israel Gollino)
Os mosaicos têm atravessado séculos como uma forma de arte que une técnica, criatividade e simbolismo. Com origem na Antiguidade, essa técnica consiste na composição de imagens, padrões ou revestimentos a partir da junção de pequenas peças — chamadas tesselas — de materiais diversos, como cerâmica, vidro, pedra e mármore.
Muito presente em templos, igrejas, palácios e monumentos históricos, o mosaico é um testemunho visual da cultura de diferentes civilizações. Na arquitetura e na decoração contemporânea, ele reaparece com força total, reinterpretado por artistas, designers e arquitetos que resgatam sua essência artesanal e a adaptam às linguagens atuais.
(Gary Drostle/Divulgação)
Hoje, o mosaico está longe de ser apenas um detalhe decorativo. Ele é usado para valorizar fachadas, revestir pisos e paredes, ou transformar objetos cotidianos em verdadeiras obras de arte.
Sua estética versátil permite aplicações que vão do clássico ao moderno, do rústico ao minimalista, reforçando sua capacidade de dialogar com o tempo.
Com a valorização de técnicas manuais, da personalização e da identidade cultural, os mosaicos voltam ao centro dos holofotes, especialmente em projetos que buscam unir história, arte e função.
(Wikimedia Commons/Divulgação)
A história dos mosaicos data milhares de anos atrás. Registros arqueológicos indicam que a técnica já era utilizada na Mesopotâmia por volta de 3.000 a.C., inicialmente com pedras e conchas para ornamentação de paredes. Porém, foi na Grécia Antiga, a partir do século V a.C., que o mosaico começou a ganhar contornos artísticos mais definidos, com composições geométricas e cenas mitológicas em pisos e murais.
(Medium/Divulgação)
O Império Romano aprimorou e expandiu o uso dos mosaicos, tanto em residências quanto em edifícios públicos. As obras romanas se destacavam pela riqueza de detalhes e uso de mármores coloridos e vidros, como nos complexos de Pompeia e Herculano.
Na sequência, o Império Bizantino levou os mosaicos a um novo patamar, especialmente em igrejas e basílicas, com destaque para o uso de fundo dourado e representação de figuras religiosas.
Detalhe do mosaico bizantino Mosaïque des Comnène, na Basílica de Santa Sofia, em Istambul. A obra combina ouro e vidro colorido em composições sagradas, típicas do estilo bizantino. (Wikimedia Commons/Divulgação)
Durante a Idade Média, a tradição dos mosaicos foi preservada sobretudo no mundo islâmico e no Oriente, onde ganhou formas geométricas elaboradas, devido à proibição da representação figurativa.
O Renascimento e o Barroco resgataram o uso dos mosaicos na Europa Ocidental, com uma pegada mais pictórica e exuberante. Já nos séculos XIX e XX, o mosaico foi reinterpretado por movimentos como o Art Nouveau, o Modernismo catalão e o Bauhaus, estabelecendo novos caminhos para a técnica no mundo moderno.
O mosaico do Parque Güell, em Barcelona, é um dos marcos do Modernismo catalão. Criado por Antoni Gaudí com a técnica do trencadís, o revestimento em cerâmica fragmentada cobre muros, fontes e esculturas com formas orgânicas e cores vibrantes. (Taisia Karaseva/Unsplash/Divulgação)
Ao longo da história, muitos artistas e arquitetos contribuíram para a evolução do mosaico como forma de arte e expressão arquitetônica. Um dos nomes mais emblemáticos é o do catalão Antoni Gaudí, cujas obras modernistas em Barcelona, como o Parque Güell e a Sagrada Família, utilizam mosaicos de maneira inovadora, com destaque para a técnica do trencadís — a reutilização de fragmentos de cerâmica colorida.
A Casa Batlló, em Barcelona, é uma das obras-primas de Antoni Gaudí. Seus revestimentos em mosaico cerâmico colorido, aplicados com a técnica do trencadís, reforçam as formas ondulantes da fachada e traduzem a estética única do Modernismo catalão. (Mozaico/Divulgação)
Friedensreich Hundertwasser, artista austríaco do século XX, ficou conhecido por suas construções orgânicas e coloridas, nas quais os mosaicos ajudavam a compor fachadas vibrantes e únicas.
A Torre Kuchlbauer, na Alemanha, é uma criação do artista austríaco Friedensreich Hundertwasser. Com formas irregulares, cores intensas e superfícies revestidas por mosaicos, a obra mistura arte, arquitetura e natureza em uma linguagem lúdica e orgânica. (Karsten Gieselmann/Flickr/Divulgação)
No Brasil, um dos exemplos mais emblemáticos é a Escadaria Selarón, no Rio de Janeiro, criada pelo artista chileno Jorge Selarón como uma homenagem ao povo brasileiro. A escadaria é revestida com mais de 2 mil azulejos de diferentes cores, padrões e origens, em uma composição espontânea e afetiva.
A Escadaria Selarón, no Rio de Janeiro, é uma obra viva do artista chileno Jorge Selarón. Revestida com mais de 2 mil azulejos de diversas partes do mundo, a escada celebra a cultura brasileira com cores vibrantes e mosaicos cheios de significado. (Viajantes/Divulgação)
Outro destaque contemporâneo é o mural "Em Busca da Luz", do artista Ed Ribeiro, considerado o maior mosaico do Brasil. Com cerca de 70 metros de comprimento, a obra foi instalada na escola Traços e Letras, em Catu (BA), e celebra a arte como caminho para a educação e transformação social.
O mural Em Busca da Luz, de Ed Ribeiro, é o maior mosaico do Brasil, com cerca de 70 metros de comprimento. Instalado em Catu (BA), a obra celebra a educação e a cultura como caminhos para a transformação, com mosaicos coloridos que retratam símbolos da infância, da arte e da ancestralidade brasileira. (Licia Fabio/Divulgação)
Presentes em praticamente todas as culturas, os mosaicos continuam a inspirar artistas e arquitetos ao redor do mundo, ganhando novas leituras no cenário contemporâneo. Hoje, a técnica se expande para além de sua função decorativa, assumindo papel de intervenção urbana, revitalização de espaços públicos e expressão artística em larga escala.
Obra do artista britânico Gary Drostle, este mosaico em formato de lago com peixes (fish pond) combina realismo e poesia visual. Feito com pastilhas de vidro e cerâmica, o trabalho destaca a precisão técnica e o movimento fluido característico do artista, criando uma ilusão de profundidade que transforma o chão em arte. (Gary Drostle/Divulgação)
Entre os nomes de destaque está o britânico Gary Drostle, conhecido por seus painéis e pisos em mosaico que integram arte e paisagem. Seu trabalho combina realismo e narrativa visual, como no mosaico Fish Pond, que transforma o chão em um lago repleto de peixes coloridos.
Obra do artista Verdiano Marzi, mestre da tradição de Ravena, que une técnicas clássicas a composições contemporâneas, criando mosaicos que dialogam com história e inovação. (Pallavicini22 Art Gallery/Divulgação)
Na Itália, a artista Verdiano Marzi preserva e reinventa a tradição de Ravena, criando composições que dialogam com a história e a contemporaneidade.
Mosaico da artista israelense Ilana Shafir, mundialmente conhecida por seu estilo único de mosaico espontâneo, técnica na qual a obra é criada sem desenho prévio, ao contrário do mosaico tradicional. (Ilana Shafir/Divulgação)
Já a artista israelense Ilana Shafir (1924-2014), mesmo com forte influência modernista, deixou um legado de obras públicas vibrantes, explorando o mosaico como um organismo vivo e dinâmico.
Obra da artista australiana Pamela Irving, conhecida por seus mosaicos lúdicos e cheios de personalidade, que combinam humor, narrativas visuais e cores vibrantes. (The Interiors Addict/Divulgação)
Outros artistas, como a australiana Pamela Irving, conhecida por suas figuras lúdicas e narrativas irreverentes, demonstram como o mosaico permanece em constante reinvenção. Essas produções mostram que, independentemente do continente ou da linguagem adotada, a técnica milenar segue como uma poderosa forma de expressão visual, capaz de unir tradição, cultura e inovação em um mesmo espaço.
Fichberg Arquitetura e Interiores - Déjà Vu. Os sócios Eloy e Felipe Fichberg combinam memórias do estilo art nouveau com a exuberância da fauna, flora e cultura brasileiras em um recanto contemplativo de 49 m². Na área do banheiro, chamam a atenção os vitrais que retratam povos indígenas e a Mata Atlântica. Já o piso de mosaico, produzido com porcelanato reutilizado, exibe figuras de frutas tropicais, como cacau, açaí, abacaxi, jabuticaba e caju. Na sala, os profissionais fazem uma ponte entre passado e presente com a mistura de móveis clássicos e exemplares de design contemporâneo. Uma reflexão sobre representatividade feminina vem à tona por meio da obra da artista Silvana Mendes. (Bia Nauiack/Divulgação)
Na edição da CASACOR São Paulo 2025, os mosaicos ganham destaque em uma releitura contemporânea repleta de simbolismo e brasilidade. No ambiente Déjà Vu, assinado pelo escritório Fichberg Arquitetura e Interiores, o piso em mosaico é um dos pontos altos do projeto, que propõe um diálogo sensível entre o passado e o presente por meio de formas orgânicas, luz filtrada e elementos artesanais. Inspirado no movimento Art Nouveau, o espaço incorpora referências à natureza e à cultura brasileira, com um olhar voltado para a biodiversidade, a memória e a identidade.
Fichberg Arquitetura e Interiores - Déjà Vu. Projeto da CASACOR São Paulo 2025. (Chrys Hadrian/CASACOR)
O piso foi produzido em parceria com o Studio Ceiba, especializado em mosaicos artesanais e formado pelo artista Andrés Añez e pelo arquiteto e designer Eduardo Baldelomar, também integrante do elenco CASACOR. Executado com a técnica do trencadís, popularizada por Gaudí, o trabalho utilizou porcelanatos reutilizados para compor o desenho. A composição retrata frutas tropicais como cacau, açaí, jabuticaba, caju e abacaxi, além de elementos que evocam os povos originários do Brasil.
Fichberg Arquitetura e Interiores - Déjà Vu. Projeto da CASACOR São Paulo 2025. (Bia Nauiack/CASACOR)
Esse texto contou com o apoio de
CASACOR Publisher, um agente criador de conteúdo exclusivo, desenvolvido pela equipe de Tecnologia da CASACOR a partir da base de conhecimento do casacor.com.br. Este texto foi editado por Yeska Coelho.