Arquiteto e professor da FAU-USP, Eduardo de Almeida deixa legado marcante na arquitetura brasileira
Publicado em 14 de abr. de 2026, 15:00

Eduardo de Almeida (Ana Ottoni/Divulgação)
O arquiteto Eduardo de Almeida faleceu no último domingo (12), aos 92 anos, em São Paulo. A informação foi confirmada pela família. Ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês, porém a causa da morte não foi divulgada. Com uma trajetória que ultrapassa seis décadas, Almeida consolidou-se como referência tanto na prática profissional quanto na formação acadêmica.
Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), formou gerações de arquitetos e contribuiu para o desenvolvimento do pensamento arquitetônico no país. Seu trabalho é reconhecido pela precisão técnica, pela racionalidade construtiva e pelo pioneirismo no uso estruturas metálicas em casas.
Nascido em 1933, em São Paulo, Eduardo Luiz Paulo Riesenkampf de Almeida demonstrou desde cedo interesse pelas artes. Formou-se pela FAU-USP em 1960, período de intensa efervescência intelectual que influenciou sua visão crítica sobre a arquitetura.
Ainda nos primeiros anos de carreira, abriu o escritório Horizonte Arquitetura ao lado de Ludovico Martino, Arthur Fajardo Netto, Dácio Ottoni e Henrique Pait. A experiência contribuiu para o desenvolvimento de uma linguagem baseada na clareza estrutural e na experimentação técnica.
Em 1962, recebeu uma bolsa de estudos para cursar design e história da arte em Florença, na Itália. De volta ao Brasil, em 1967, foi convidado para dar aulas na FAU-USP. Inicialmente responsável pela disciplina de desenho industrial, passou, a partir de 1972, a dedicar-se ao ensino de projeto de edificações.
Eduardo de Almeida (Lalo de Almeida/Divulgação)
Ao longo de mais de três décadas, concluiu mestrado e doutorado, orientou dezenas de dissertações e teses e contribuiu para a formação de profissionais. Aposentou-se da carreira acadêmica em 2000, mantendo participação eventual em palestras e eventos acadêmicos.
Paralelamente, entre 1977 e 1986, formou parceria com o arquiteto Arnaldo Martino, período em que desenvolveu projetos marcados pelo uso expressivo de estruturas metálicas. Após o término da sociedade, seguiu carreira individual, colaborando ocasionalmente com arquitetos de gerações mais jovens.
Reconhecido na área, recebeu prêmios e homenagens pelo conjunto de sua obra, concedidos por instituições como o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo.
Apesar das residências terem sido o foco de seus trabalhos, Eduardo de Almeida também deixou contribuições importantes em projetos institucionais e corporativos. Entre eles, destacam-se:
Os Edifícios Gemini foram concebidos para atender à demanda por habitações multifamiliares de baixo custo e rápida execução. O projeto resultou em um sistema modular com estrutura de concreto moldada in loco e componentes industrializados, permitindo replicação em diferentes terrenos.
Edifícios Gemini (Refúgios urbanos/Divulgação)
Organizada em blocos destinados a diferentes funções, a residência José L. Niemeyer dos Santos garante continuidade visual entre os ambientes. Construída com concreto aparente e lajes pré-fabricadas, apresenta estética influenciada pelo arquiteto Carlos Millan.
Residência Jose L. Niemeyer dos Santos (Júlio Abe Wakahara/Divulgação)
Projetada em parceria com Arnaldo Martino, a Casa Oppenheim representa um marco no uso de estruturas metálicas associadas à alvenaria de tijolo aparente. O projeto organiza-se em torno de um pátio central, favorecendo iluminação e ventilação naturais. O living com pé-direito elevado e a localização da área de serviços sobre a garagem demonstram soluções inovadoras para a época.
Casa Oppenheim (Divulgação/Divulgação)
Entre as obras institucionais, destaca-se o edifício do SAP Labs Brazil, localizado no Parque Tecnológico Tecnosinos, em São Leopoldo (RS). Desenvolvido em parceria com o arquiteto César Shundi Iwamizu, o projeto possui cerca de 10 mil m². Embora concebido inicialmente com estrutura metálica, foi executado em concreto armado, mantendo a organização espacial em dois blocos paralelos articulados por um pátio ajardinado.
SAP Labs Brazil (Divulgação/Divulgação)
Em parceria com o arquiteto Rodrigo Mindlin Loeb, Almeida assinou o projeto da Biblioteca Brasiliana da Universidade de São Paulo. Com mais de 20 mil m², o edifício abriga o acervo doado pelo bibliófilo José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), além de livraria, cafeteria, salas de exposição e auditório. O projeto incorpora soluções sustentáveis voltadas à preservação dos livros, como iluminação natural, fachadas com chapas perfuradas e previsão de geração de energia fotovoltaica.
Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (USP) (Marcos Santos/USP Imagens/Divulgação)
O legado de Eduardo de Almeida ultrapassa a materialidade de suas obras. Sua contribuição para o ensino e para o pensamento arquitetônico brasileiro consolidou uma abordagem baseada na precisão técnica, na clareza conceitual e na valorização dos processos construtivos.
Eduardo de Almeida (Lalo de Almeida/Divulgação)
Associado aos princípios da chamada Escola Paulista, seu trabalho evidencia o rigor estrutural e a honestidade no uso dos materiais, ao mesmo tempo em que revela abertura à inovação. Além disso, o pioneirismo no emprego de estruturas metálicas em residências reforça sua relevância no cenário arquitetônico nacional.