Concebida como protótipo de habitação modular, a Casa Bola sintetiza o pensamento de Eduardo Longo e sua proposta de cidades formadas por módulos independentes e industrializados
Publicado em 6 de mar. de 2026, 14:25

Exposição ABERTO5 na Casa Bola (Ruy Teixeira/CASACOR)
Quando concebeu a Casa Bola, entre 1974 e 1979, no bairro do Brooklin, em São Paulo, Eduardo Longo sabia que a proposta era excêntrica, mas seu pensamento ia muito além da estética. A estrutura esférica era, antes de tudo, um protótipo habitacional — um manifesto construído que sintetizava sua visão de cidade. Mais do que uma casa, tratava-se de um módulo: uma unidade que poderia ser reproduzida em série e conectada a grandes estruturas urbanas, formando conjuntos flexíveis e independentes.
A escolha da forma não foi mero gesto formal. A esfera, estruturalmente eficiente, distribui cargas de maneira uniforme e reduz a necessidade de apoios internos. No pensamento de Longo, isso significava liberdade espacial e racionalização construtiva. A Casa Bola foi erguida com técnicas experimentais e materiais industriais, e o próprio arquiteto participou ativamente da construção — vivendo ali, trabalhando ali, testando na prática as possibilidades daquilo que defendia.
Exposição ABERTO5 na Casa Bola (Ruy Teixeira/CASACOR)
A residência funcionava como laboratório: iluminação zenital, circulação vertical compacta, ambientes integrados. Cada decisão apontava para um modo de morar menos compartimentado e mais adaptável. Ao mesmo tempo, a casa desafiava a paisagem ortogonal da cidade, afirmando-se como corpo estranho — quase uma cápsula pousada no lote urbano.
O aspecto mais radical do projeto estava na ideia de produção seriada. Longo imaginava que suas esferas pudessem ser fabricadas como automóveis, em linha de montagem, e depois transportadas para estruturas-suporte — megaestruturas onde diferentes módulos seriam “plugados”. Assim, cada morador teria sua unidade autônoma, sem paredes geminadas, preservando privacidade e identidade, mas integrada a um sistema coletivo maior.
Maquete projeto habitacional de Eduardo Longo (Reprodução/CASACOR)
Essa visão dialogava com o espírito experimental dos anos 1960 e 70, período marcado por propostas utópicas na arquitetura internacional. No Brasil, entretanto, Longo destoava do racionalismo predominante ao buscar não apenas eficiência, mas também buscava reinventar a lógica urbana.
(Divulgação/CASACOR)
Na prática, sua utopia não foi replicada em escala. A Casa Bola permaneceu como exemplar único. Ainda assim, seu pensamento ecoa nas discussões contemporâneas sobre habitação modular. Em um cenário de crise habitacional e urgência ambiental, a ideia de reduzir desperdícios, otimizar recursos e produzir moradias com maior controle industrial volta a ganhar força.
A reabertura da Casa Bola ao público, agora ocupada pela mostra ABERTO5, reacende o interesse pela obra experimental do arquiteto Eduardo Longo. A exposição transforma a residência em espaço expositivo e convida artistas a dialogar com sua arquitetura, permitindo que visitantes experimentem de perto o projeto que marcou a história da arquitetura brasileira.
Exposição ABERTO5 na Casa Bola (Ruy Teixeira/CASACOR)
A proposta de Longo talvez não tenha se concretizado em escala, mas permanece atual em suas provocações fundamentais. Ao revisitar sua obra — agora acessível ao público pela primeira vez —, a Casa Bola deixa de ser apenas um objeto singular na paisagem paulistana e reafirma sua força como manifesto arquitetônico.