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Arquitetura

Dia do Cerrado: casas no bioma ensinam a fazer melhor uso da topografia

Casas no Cerrado ensinam que arquitetura consciente não é apenas estética: é resposta ao clima, relevo, biodiversidade e cultura de um lugar

Por Milena Garcia

Publicado em 11 de set. de 2025, 15:00

08 min de leitura
Projeto de Hersen Mendes.

Projeto de Hersen Mendes. (Joana França)

Casas no Cerrado são verdadeiros exemplos de adaptação, sensibilidade ao terreno e diálogo com o ambiente natural. No bioma que ocupa cerca de 22% do território brasileiro, a topografia revela chapadões, vales, serras suaves, veredas e formas variadas que oferecem oportunidades únicas para a arquitetura. Respeitar essas nuances permite não só reduzir o impacto ambiental, mas também melhorar o conforto térmico, visual e o uso de energia.
Horto Girassol - Varanda Raizes do Cerrado. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2024.

Horto Girassol - Varanda Raizes do Cerrado. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2024. (André Nazareth/CASACOR)

O Dia Nacional do Cerrado, comemorado em 11 de setembro, é momento ideal para lembrar da urgência de preservar esse bioma tão estratégico para o Brasil — graças à sua rica biodiversidade, nascentes, solo e relevo. Também é tempo de refletir sobre como as casas no Cerrado podem ser projetadas para conviver harmonicamente com essas características, aprender com os desafios naturais e culturais que ele enfrenta e inspirar uma arquitetura mais consciente!

Situação atual do bioma: desafios e importância


O bioma Cerrado está sob pressão crescente. Estudos recentes apontam que resta entre 40% a 50% da vegetação nativa em diversas fitofisionomias. Desmatamento para expansão agropecuária, queimadas recorrentes e uso inadequado do solo o colocam entre os biomas mais ameaçados do país.
Bioma Cerrado

(Agência Brasil/Divulgação)

O Cerrado é também denominado “berço das águas”, pois em suas terras nascem diversas das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil, como as do São Francisco, Tocantins-Araguaia e Prata. Isso ressalta sua importância crítica não apenas para fauna e flora, mas para abastecimento de água, clima, manutenção de ecossistemas e para a vida humana nos centros urbanos.

Como casas no Cerrado ensinam a usar bem a topografia


Com base nas características naturais, como o relevo variado, o clima tropical sazonal e o solo de baixa fertilidade natural, algumas estratégias arquitetônicas usadas em casas no Cerrado servem de modelo:

Terraceamento e implantação em níveis


Aproveitar desníveis do terreno para distribuir volumes em níveis diferentes ajuda a reduzir o corte de terra, preservar o solo e oferecer vistas privilegiadas. Casas escalonadas, com platôs ou decks aproveitando o relevo, também favorecem ventilação cruzada e sombra natural.

Orientação solar e sombreamento


Projetar moradia com base na orientação solar, de modo que a fachada e as aberturas aproveitem o sol da manhã (mais suave) e se protejam do sol forte da tarde. Uso de beirais largos, brises, vegetação de porte adequado (árvores nativas) ajuda a filtrar luz, evitar aquecimento excessivo e tornar os ambientes internos mais confortáveis.
Natália Lemos - Casa Raizes do Cerrado. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2024.

Natália Lemos - Casa Raizes do Cerrado. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2024. (André Nazareth/CASACOR)

Ventilação natural e brisa


As casas no Cerrado podem se beneficiar bastante da ventilação, aproveitando ventos predominantes. Posicionar janelas, vasos de ventilação, aberturas em níveis distintos e corredores de vento pode reduzir ou eliminar a necessidade de ar-condicionado em muitos momentos.

Uso de materiais locais e técnicas vernaculares


Materiais como madeira de reflorestamento, tijolos de mão, adobe ou blocos de solo-cimento, telhas de barro, reboco com argamassa mais leve — tudo isso contribui para ajustar a construção ao clima seco, ao solo e às características locais. Técnicas que permitam expansão térmica adequada e pouca retenção de calor são valiosas.

Conservação do entorno natural


Preservar ou restaurar veredas, vegetação de borda, vegetação de topo e copa, córregos e nascentes ajudando a manter microclimas locais. Algumas casas no Cerrado integram paisagismo nativo, protegem os ecossistemas ao redor, evitando impermeabilização excessiva e promovendo infiltração de água.
Sérgio Viana Arquitetura - Suíte Hotel Ouro do Cerrado. Projeto da CASACOR Minas Gerais 2025.

Sérgio Viana Arquitetura - Suíte Hotel Ouro do Cerrado. Projeto da CASACOR Minas Gerais 2025. (Jomar Bragança/CASACOR)

Arquitetura e estética influenciada pelo bioma


Estética e forma arquitetônica também dialogam fortemente com o ambiente. Sendo assim, casas no Cerrado muitas vezes exibem:
  • Volumes que acompanham o contorno do terreno, evitando grandes aterros ou movimentação de terra;
  • Telhados inclinados ou com beirais generosos, para desalojar água durante as chuvas fortes, proteger do sol e favorecer conforto térmico;
  • Espaços fluidos entre interior e exterior, como pátios internos, varandas amplas, pergolados, galerias, que permitem transição suave e interações com paisagem natural;
  • Paleta de cores e texturas que remete ao bioma: ocres, terracotas, tons de terra, madeira, pedra natural ou bruta, complementados pelo verde das espécies nativas.
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Nando Nunes - Casa Cinza Cerrado. (Edgard César/CASACOR)

O papel do design sustentável nos desafios futuros


Diante das ameaças que o Cerrado enfrenta — desmatamento acelerado, fragmentação, incêndios frequentes, expansão agrícola intensa e pressão urbana — as casas no Cerrado podem funcionar como instrumentos de preservação. Projetos com menor impacto, uso racional de recursos hídricos, técnicas de construção que reduzam pegada de carbono, energias renováveis integradas, e sensibilização aos saberes tradicionais são pontos que fazem diferença.