A arquitetura brasileira é marcada por elementos e materiais que muitas vezes passam despercebidos aos olhos mas fazem parte do cotidiano da população. Da mesma forma que a gastronomia, a música e as tradições fazem parte da construção cultural de um lugar, diferentes elementos arquitetônicos também desempenham esse papel e ajudam a criar um imaginário identitário. Conheça alguns deles: Cobogós
“Os cobogós são elementos bem característicos que formam o imaginário popular sobre o que é a arquitetura brasileira”, cita Mariana Cavalcanti, arquiteta e urbanista pesquisadora de patrimônio cultural. Criados em Recife na década de 1920, os cobogós são elementos vazados de cimento, cerâmica ou vidro que permitem ventilação e iluminação natural, ao mesmo tempo que criam padrões decorativos nas fachadas e garantem privacidade. “Eles estão presentes em diferentes edificações da arquitetura moderna, desde residências periféricas a lugares públicos, como escolas e hospitais”, acrescenta Mariana. Treliças e muxarabis
(Gabriela Daltro/CASACOR)
Treliças e muxarabis são outros componentes que garantem a privacidade sem bloquear a ventilação. Inspirados na arquitetura mourisca, são painéis de madeira ou cerâmica perfurados, usados para criar divisórias. Enquanto as treliças são estruturas vazadas, geralmente feitas de madeira, ferro ou outros materiais, formando padrões geométricos, os muxarabis são um tipo específico de treliça usados nas fachadas das casas para permitir que as pessoas vejam o lado de fora sem serem vistas. Os modelos chegaram no Brasil através da arquitetura colonial portuguesa. Piso de caquinho
O piso de caquinho surgiu na década de 1940 como forma de reaproveitar materiais que seriam descartados. Compostos por pedaços irregulares de cerâmica ou azulejos quebrados, os caquinhos formam desenhos orgânicos, muito populares em calçadas, quintais e áreas externas. “Esse modelo de piso foi absorvido pela indústria a ponto de hoje existirem linhas de porcelanato que o imitam. O que antes era um reaproveitamento de peças se tornou um material de desejo, quebrando-se materiais propositalmente para ter linhas que remetem a essa estética”, diz Mariana. Raio que o parta
Assim como piso de caquinho, o raio que o parta é um tipo de piso ou revestimento feito a partir de fragmentos irregulares de mármore, granito ou outros materiais pétreos. Os pedaços quebrados são assentados lado a lado e criam um mosaico com visual caótico. Igor Carollo, arquiteto com mestrado em Projeto e Patrimônio, História e Crítica da Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que o raio que o parta, também da década de 1940, é um movimento de alta profusão no Pará, principalmente no Belém. “O movimento surgiu em um contexto popular onde famílias que não tinham dinheiro para investir em elementos modernistas criaram fachadas com grande platibandas e desenhos ornamentados de raios.” Azulejos portugueses
Anna Malta e Andréa Duarte – Cozinha dos Amigos. A generosa metragem de 80 m² e a ambientação de estar transformam esta cozinha no coração da casa. A decoração mistura recursos tecnológicos do século XXI com a beleza dos elementos arquitetônicos originais da construção, como os azulejos portugueses e o piso. Boa parte dos objetos também fazem parte do acervo do palacete. (André Nazareth/CASACOR)
Herdados da colonização, os azulejos portugueses também contemplam essa gama de elementos que fazem parte da arquitetura brasileira. Caracterizados com padrões geométricos ou florais, esses materiais ainda hoje aparecem em fachadas coloniais, principalmente em cidades históricas como Salvador e São Luís. Beiral alto
“Assim como o azulejo português, o beiral vem da arquitetura colonial brasileira. E mais uma vez tem a ver com o nosso clima e acaba remetendo a uma identidade nacional”, menciona Mariana. Essenciais nas casas coloniais e nas fazendas, esses beirais profundos ajudam a proteger as paredes do sol e da chuva, criando sombras frescas e ampliando o convívio ao ar livre. Piso de cimento queimado
Sammea Vilarinho e Marcelo Menezes - Home Office do Artista. Assinado por Sammea Vilarinho Andrade e Marcelo Menezes, o Home Office do Artista é um espaço urbano, inspirador, sofisticado, moderno e descolado. O cinza predomina nas paredes e teto e no piso cimento queimado. Inspirado na Galeria Leme, em São Paulo, cidade em que a Sammea morou alguns anos. O ambiente irá expor mais de 15 obras fotográficas produzidas pelo próprio Marcelo Menezes. Um toque de personalidade no espaço são alguns objetos pessoais, como a bicicleta. Assim, o espaço é seu infinito particular, local para criar, descansar, receber clientes e proporcionar momentos de lazer com amigos. (Edgard César/CASACOR)
O piso de cimento queimado, revestimento simples de aparência lisa e contínua, é outro clássico. O material oferece frescor nos ambientes, além de ser resistente e versátil. Hoje, ele voltou com tudo em projetos contemporâneos por trazer uma pegada minimalista e rústica ao mesmo tempo. “Esses exemplos se adequam muito bem a nossa realidade climática e tem a cara do Brasil, o que agrada diferentes camadas sociais e se apresenta em muitos contextos, criando essa identidade”, afirma a pesquisadora. Contexto histórico e patrimônio cultural
Mariana explica que quando o modernismo construiu uma ideia de identidade nacional, no contexto do Estado Novo, em 1937, também foi preciso que a arquitetura representasse esse senso. “O estilo arquitetônico escolhido foi o colonial, sendo definido como a arquitetura brasileira por excelência. Muitas outras arquiteturas contemporâneas foram vistas de maneira negativa, como se fosse algo importado e não nosso. Para nós que realizamos uma crítica contemporânea, isso não faz muito sentido, pois tudo foi adaptado para nossa realidade e a mistura de estilos faz parte da nossa construção.” Embora sejam de períodos muito distintos, a arquitetura colonial e a moderna dialogavam no momento de construção de identidade nacional. O IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) foi criado também no ano de 1937, durante o governo de Getúlio Vargas. “Quando se começa a construir essa política de preservação no Brasil é quando começamos a construir a ideia de identidade nacional”, observa Mariana. Sede do Iphan em Recife (PE) (Divulgação/Divulgação)
Carollo ressalta que no Artigo 216, a Constituição de 1988 assegura que o patrimônio cultural brasileiro não está somente em grandes monumentos, mas também em saberes populares e arquiteturas mais populares. “Elementos que surgem a partir de movimentos de alta profusão e se popularizam também são patrimônios brasileiros, os quais os órgãos de preservação têm dificuldade de reconhecer para protegê-los legalmente”, aponta. Mariana completa: “considero como patrimônio não só aquilo que é definido como tal pelo Estado, mas também todos os bens que estabelecem sensações de pertencimento, agregando a eles valores sentimentais que queremos que alcance outras gerações”.