Da escolha do terreno às soluções construtivas, decisões tomadas ainda na fase de projeto definem o desempenho sonoro da edificação. Entenda como a certificação AQUA-HQE™ coloca o conforto acústico no centro da arquitetura sustentável
Publicado em 6 de fev. de 2026, 18:17

Duda Porto projetou para a CASACOR Rio 2016 as Cabanas. A principal abrigava um loft de 40 m². Na área externa, cabanas menores formam uma casa na árvore e uma pet house. A construção foi feita em estrutura metálica com revestimento termoacústico, madeira tipo OSB estrutural, manta hidrofugante e, por fim, placa cimentícia. (Divulgação/CASACOR)
O lar deve ser sinônimo de refúgio, segurança, acolhimento e identidade. Neste espaço, a poluição sonora precisa ficar do lado de fora, porque mais do que incômodo, o ruído constante é uma questão de saúde pública. A exposição prolongada pode causar estresse, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, ansiedade, depressão e aumento da pressão arterial. Em situações mais graves, pode levar à perda auditiva temporária ou permanente. Nesse contexto, a acústica deixa de ser detalhe técnico e passa a ocupar papel central na arquitetura.
A eficiência acústica de uma edificação resulta de um conjunto articulado de decisões arquitetônicas. Trata-se de pensar o isolamento e o controle do som desde a concepção do projeto, integrando soluções construtivas, materiais e estratégias de implantação.
A certificação AQUA-HQE™, da Fundação Vanzolini, consolida-se como referência ao orientar arquitetos e incorporadores na busca pelos melhores índices de desempenho em construções sustentáveis. Seu referencial técnico estabelece diretrizes claras para o isolamento de ruídos aéreos entre ambientes internos e entre unidades habitacionais, além do tratamento de fachadas, do controle de ruídos de impacto entre pavimentos e da mitigação de sons provenientes das instalações prediais e de áreas comuns.
Apê ganha sala acústica e banheiro onde não tinha instalação hidráulica (Gabriel Lima/CASACOR)
Segundo Nelson Solano, especialista em acústica e auditor da Fundação Vanzolini, decisões como o tipo de estrutura, a composição de lajes e paredes, a definição das fachadas e o projeto das instalações têm impacto direto no desempenho sonoro da edificação. “Este fato torna bem mais difícil corrigir problemas depois do imóvel construído. Daí a necessidade de ter um especialista desde os primeiros momentos, até mesmo na escolha do terreno”, alerta.
De acordo com a Fundação Vanzolini, o conforto acústico residencial deve estar no centro da qualidade ambiental de uma edificação. Solano destaca que a certificação exige o controle de ruídos internos e externos e a redução de impactos gerados por sistemas prediais, com comprovação de desempenho desde o projeto até a obra, incluindo medições in loco. Ao incentivar estudos acústicos, soluções construtivas adequadas e a verificação técnica dos resultados, o processo promove boas práticas e amplia a conscientização sobre os efeitos do ruído na saúde e no bem-estar.
Andrea RuizCaro Caipo - Salón de Música + Private Room. Projeto da CASACOR Peru 2024. (Josefina Ferrand/CASACOR)
O referencial técnico da AQUA-HQE™ baseia-se na ABNT NBR 15.575 para determinar o desempenho acústico mínimo, estabelecendo parâmetros para ruídos aéreos externos e entre unidades habitacionais, ruídos de impacto entre pavimentos e sons provenientes das instalações prediais. No entanto, a certificação ultrapassa o atendimento básico à norma.
“O referencial técnico adota uma lógica de melhoria contínua e níveis graduais de desempenho. Em vez de apenas verificar conformidade, incentiva níveis superiores de isolamento acústico, melhor controle de ruídos aéreos e de impacto, e soluções de projeto mais integradas”, detalha Solano.
Entre os aspectos avaliados estão a separação entre dormitórios e áreas sociais, o isolamento de fachadas conforme o entorno, o desempenho acústico de pisos entre unidades sobrepostas e entre áreas de lazer coletivo e unidades habitacionais, além do controle do ruído das instalações prediais.
Augusto Senna Home office do Arquiteto CASACOR Bahia 2022 escritorio mesa quadro cadeira estante (Gabriela Daltro/CASACOR)
Marcos Holtz, presidente da Associação Brasileira para a Qualidade Acústica (ProAcústica), observa avanços significativos no mercado brasileiro de materiais e sistemas construtivos. “Sempre estão sendo pesquisadas novas alternativas e, no Brasil, pudemos observar um aumento no número de materiais à disposição”, afirma, citando lãs de PET, sistemas de pisos flutuantes, antivibratórios, vedações e fachadas de alto desempenho.
A mudança de hábitos, como a consolidação do home office, também elevou o padrão de exigência. “Com muitas pessoas trabalhando em suas casas, se percebeu que é preciso levar em conta também o ruído diurno para projetar o isolamento dessas residências”, explica Holtz.
Nos espaços comunitários, as exigências da certificação são igualmente abrangentes. A análise técnica do projeto e das soluções construtivas verifica como ruídos aéreos e vibrações de áreas comuns podem interferir na privacidade das unidades habitacionais, garantindo que o uso coletivo não comprometa o conforto individual.