Com o filme "O Brutalista", o movimento arquitetônico retorna ao foco, ressaltando sua estética robusta e o embate entre inovação e resistência
Publicado em 20 de fev. de 2025, 7:00

O Ginásio do Clube Atlético Paulistano, obra de Paulo Mendes da Rocha concluída em 1961 em São Paulo. (Reprodução)
O brutalismo é um dos estilos arquitetônicos mais marcantes do século XX, conhecido por suas formas geométricas imponentes, materiais brutos e uma estética que muitas vezes divide opiniões. O estilo, que teve seu auge entre as décadas de 1950 e 1970, resiste até hoje e continua influenciando diversas formas de arte e design.
No Brasil, o movimento ganhou força com arquitetos como Paulo Mendes da Rocha, João Vilanova Artigas e Lina Bo Bardi. Suas obras enfatizam o uso do concreto aparente e uma conexão intensa com o espaço urbano, ressaltando a influência duradoura do brutalismo na paisagem urbana e na identidade arquitetônica do Brasil.
Cena do filme "O Brutalista". (Divulgação/CASACOR)
Recentemente, o brutalismo também tem ganhado destaque nas telas de cinema com o filme "O Brutalista" (2025), que concorre ao Oscar de Melhor Filme. A produção traz uma abordagem cinematográfica do movimento, explorando sua estética impactante e seu simbolismo visual por meio da história de um arquiteto que luta para concretizar sua visão artística em um mundo que nem sempre compreende sua proposta.
Um dos marcos arquitetônicos da cidade de São Paulo, o Sesc Pompéia é obra de Lina Bo Bardi | (Pedro Kok/CASACOR)
Após a devastação da guerra, muitas cidades europeias precisaram ser reconstruídas rapidamente, e a arquitetura brutalista surgiu como uma resposta a essa necessidade de praticidade, funcionalidade e rapidez.
A escolha do concreto como material predominante não só estava ligada à disponibilidade e custo, mas também simbolizava a robustez e a resistência de um novo tempo. O brutalismo, portanto, se tornou uma expressão de uma era que buscava uma nova identidade, rompendo com os estilos decorativos do passado e, muitas vezes, desafiando a estética tradicional.
Esse estilo foi adotado tanto por arquitetos governamentais quanto por projetos de habitação social, refletindo uma tentativa de fornecer soluções simples e eficientes para um mundo que precisava se reerguer diante daquele cenário.
Estádio do Morumbi, por Vilanova Artigas (Itaú Cultural/CASACOR)
Apesar de ter sido inicialmente associado a uma visão otimista do futuro, o brutalismo também foi alvo de críticas ao longo dos anos. Muitas pessoas o consideraram frio e impessoal, especialmente em projetos habitacionais, onde as formas severas e o uso do concreto exposto contribuíram para uma sensação de alienação. No entanto, o brutalismo também recebeu reconhecimento pela autenticidade e inovação que trouxe à arquitetura moderna.
Hoje, décadas após o seu auge, o brutalismo continua a provocar discussões sobre seu legado e relevância. Muitos edifícios brutalistas, embora controversos, são considerados marcos arquitetônicos e exemplos de uma época em que a arquitetura tentou redefinir o que significava modernidade, utilidade e resistência.
Prédio da FAU/USP por Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi (Divulgação/CASACOR)
No Brasil, o brutalismo se consolidou como um dos estilos arquitetônicos mais expressivos, impulsionado por grandes nomes como João Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha e Lina Bo Bardi. Esses arquitetos trouxeram ao país construções icônicas que dialogam com o espaço urbano e promovem uma arquitetura democrática.
Entre as principais obras estão o Sesc Pompeia, de Lina Bo Bardi, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, projetada por Artigas, e o Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE), assinado por Paulo Mendes da Rocha.
Essas construções, caracterizadas pelo uso do concreto aparente e pela valorização da estrutura em sua forma mais pura, tornaram-se referências do brutalismo brasileiro e continuam sendo estudadas e admiradas mundialmente.
MUBE, Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia, assinado por Paulo Mendes da Rocha (Nelson Kon/CASACOR)
O filme "O Brutalista" (2025), dirigido por Brady Corbet e estrelado por Adrien Brody e Felicity Jones, transpõe o conceito do brutalismo da arquitetura para a linguagem cinematográfica.
Indicado a 10 categorias no Oscar 2025, o longa acompanha a trajetória de um arquiteto húngaro que, nos anos 1950, emigra para os Estados Unidos em busca de liberdade criativa. No entanto, à medida que tenta construir sua obra-prima, ele se depara com um mundo que resiste à sua visão, assim como muitas cidades resistiram às formas imponentes do brutalismo.
Cena do filme "O Brutalista". (Divulgação/CASACOR)
A estética do filme dialoga diretamente com a filosofia brutalista: a fotografia aposta em contrastes marcantes, enquadramentos austeros e um uso expressivo do espaço. Estruturas de concreto dominam o cenário, intensificando a sensação de isolamento do protagonista e traduzindo visualmente seus conflitos. O brutalismo, muitas vezes visto como frio e impessoal, aqui se torna um espelho da luta entre a criação e a rejeição.
"Com o brutalismo dos anos 1950, enquanto as pessoas erguiam aqueles monumentos, muitas pessoas os derrubavam imediatamente. A arquitetura brutalista representa algo que as pessoas não entendem e querem ver derrubado e arrancado dali", afirmou Brady Corbet, diretor do filme, em entrevista à BBC.
Com "O Brutalista", as premiações não apenas celebram um filme visualmente arrojado, mas também reconhecem como cinema e arquitetura podem se entrelaçar para contar histórias que vão muito além do concreto — narrativas sobre ambição, permanência e a eterna tensão entre inovação e resistência.