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Arquitetura, Sustentabilidade

Bioparedes: o que são e quais os principais materiais?

As bioparedes usam terra, fibras vegetais e soluções de base biológica para criar superfícies mais saudáveis, regenerativas e conectadas ao território

Por Milena Garcia

Publicado em 23 de fev. de 2026, 17:13

08 min de leitura
Julia Gasparini - Bangalô Duna. Projeto da CASACOR Ceará 2025.

Julia Gasparini - Bangalô Duna. Projeto da CASACOR Ceará 2025. (Felipe Petrovsky/Divulgação)

As bioparedes sintetizam uma mudança estrutural na construção civil: a substituição gradual de insumos industrializados de alta emissão por biomateriais renováveis, de baixo impacto e, muitas vezes, de origem local. Em vez de depender exclusivamente de cimento, tintas sintéticas e derivados petroquímicos, esses sistemas incorporam terra, bambu, cânhamo e até micélio, ampliando o repertório técnico da arquitetura contemporânea.

Clube de Gourmets Evviva, por Studio Architetonika Nomad. Ambiente da CASACOR Paraná 2022.

(Patrícia Amancio/Divulgação)

Mais do que uma tendência, as bioparedes integram um pensamento sistêmico que considera ciclo de vida, saúde ambiental e desempenho térmico de um ambiente. Ao retomar técnicas ancestrais e combiná-las a pesquisas atuais, esses sistemas oferecem alternativas consistentes para ambientes urbanos que buscam eficiência e responsabilidade ecológica.

O que caracteriza as bioparedes?


As bioparedes se caracterizam pelo uso predominante de materiais naturais ou de base biológica, com baixo processamento industrial e reduzida pegada de carbono. Terra crua, argila, fibras vegetais e ligantes minerais substituem parcialmente ou totalmente insumos convencionais. Além disso, priorizam soluções que favorecem a respirabilidade das superfícies, permitindo trocas de umidade e contribuindo para o conforto interno.

Feito a partir de terra, água e fibras naturais, o tijolo adobe é uma opção ecológica e sustentável, que preserva a temperatura interna da construção e oferece excelente resistência térmica. Uma verdadeira conexão entre a natureza e a construção civil.

O tijolo adobe é uma opção ecológica e sustentável, que preserva a temperatura interna da construção e oferece excelente resistência térmica. Uma verdadeira conexão entre a natureza e a construção civil. (Clay Expert/Divulgação)

Outro traço essencial é a integração com o contexto local. Muitas bioparedes utilizam solo disponível no próprio terreno ou fibras cultivadas regionalmente, como palha e cânhamo. Essa lógica reduz transporte, estimula economias próximas e cria uma estética vinculada ao território. Ao mesmo tempo, novas pesquisas com micélio ampliam o conceito de material construtivo, incorporando processos biológicos como parte da estrutura.

Principais tipos de bioparedes


A diversidade de bioparedes revela um campo em expansão, que combina tradição e inovação. A seguir, alguns dos principais materiais e sistemas utilizados.

Terra (taipa de pilão)

A taipa de pilão utiliza terra compactada entre fôrmas, formando paredes densas e monolíticas. Sua alta inércia térmica ajuda a estabilizar a temperatura interna ao longo do dia. Além do desempenho ambiental, apresenta textura estratificada e tonalidades naturais que variam conforme o solo empregado, conferindo identidade ao projeto.

Adobe e blocos de terra crua

Atualmente, os adobes mais populares são produzidos com terra, água e fibras vegetais moldadas em blocos e secas ao sol. Trata-se de uma solução de baixa energia incorporada e execução acessível. Quando associados a fundações bem protegidas e cobertura adequada, apresentam durabilidade significativa e bom desempenho térmico.

Bambu estrutural e painéis

O bambu é um dos materiais renováveis de crescimento mais rápido. Em paredes, pode atuar como estrutura leve, fechamento trançado ou painel modular. Sua resistência mecânica e flexibilidade favorecem soluções em climas variados, além de criar superfícies permeáveis e visualmente marcantes.

Cânhamo (Hempcrete)

O cânhamo entra nas bioparedes na forma do chamado hempcrete ou hemplime: um biocompósito feito a partir da parte lenhosa da planta misturada com cal e água, usado como material de vedação e isolamento, não estrutural. Embora não suporte cargas estruturais sozinho — exigindo uma armação de apoio — sua capacidade de sequestrar carbono e oferecer um ambiente interno mais saudável tem chamado a atenção de projetos sustentáveis.

Micélio (Fungos)

O micélio é a estrutura radicular dos fungos, cultivada em substratos orgânicos para formar blocos ou painéis. Após o crescimento, o material é desidratado, tornando-se leve e resistente. Ainda em fase de consolidação no mercado, representa uma fronteira promissora das bioparedes ao integrar biotecnologia e construção.

Benefícios ambientais e urbanos


As bioparedes contribuem para a redução de emissões associadas à produção de cimento e aço, setores historicamente intensivos em carbono. Materiais como terra, palha e cânhamo exigem menor energia de processamento e, em muitos casos, capturam carbono durante seu ciclo de crescimento. Além disso, favorecem ambientes internos com melhor qualidade do ar, ao evitar compostos orgânicos voláteis comuns em revestimentos sintéticos.

Estar Urbano - Brinquedoteca Inclusiva Girassol. Projeto da CASACOR Ceará 2025.

Estar Urbano - Brinquedoteca Inclusiva Girassol. Projeto da CASACOR Ceará 2025. (Felipe Petrovsky/Divulgação)

No contexto urbano, essas soluções colaboram para edifícios mais eficientes energeticamente. A inércia térmica da terra, o isolamento da palha e a leveza do cânhamo reduzem a demanda por climatização artificial. Integradas a estratégias passivas de ventilação e sombreamento, as bioparedes podem ajuda a mitigar ilhas de calor e a construir cidades mais resilientes.

Cuidados e manutenção


A aplicação de bioparedes requer projeto técnico atento, sobretudo no controle da umidade. Sistemas em terra e palha devem contar com fundações elevadas, impermeabilização adequada e proteção contra infiltrações. A escolha do acabamento — como rebocos minerais à base de cal — também influencia a durabilidade.

Casa com Blocos de Cânhamo / Arquitectura Viva

Casa com Blocos de Cânhamo / Arquitectura Viva (Hugo Santos Silva/Divulgação)

A manutenção tende a ser simples e localizada. Pequenas fissuras podem ser reparadas com o próprio material original, mantendo coerência estética e funcional. Mais do que uma solução pontual, as bioparedes instauram uma lógica de cuidado contínuo com a arquitetura, valorizando processos naturais e uma relação mais consciente com o ambiente construído.