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Decoración, Proyectos

Na CASACOR Bolívia 2026, a casa volta a ser território do sagrado

No retorno do fenômeno casa-templo, a CASACOR Bolívia aponta para uma arquitetura que busca, cada vez mais, incorporar a espiritualidade como parte estrutural do morar

Por Giovanna Jarandilha

Presentado en 17 jun 2026, 8:00

10 min de leitura
Andrea Forfori - La Retreta. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

Andrea Forfori - La Retreta. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026. (Alvaro Mier/CASACOR)

Nos últimos anos, vimos a casa se expandir para se tornar um verdadeiro templo do bem-estar: vieram os espaços dedicados ao autocuidado, as práticas de desaceleração incentivadas e a valorização dos sentidos. Hoje, porém, a casa passa a assumir um papel ainda mais profundo, tornando-se um espaço de reconexão e significado, quase como um templo do sagrado. É o que apontam os ambientes da CASACOR Bolívia 2026, que, diante de um mundo marcado pelos excessos e pela aceleração constante, aspiram a um lar onde o espírito tem tanta importância quanto o corpo.

Marcela Montes - Shinrin-Yoku. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

Marcela Montes - Shinrin-Yoku. A profissional propõe uma paisagem para uma pausa consciente dentro do percurso da CASACOR Bolívia, inspirado no conceito japonês Shinrin-Yoku (banho de floresta). Seu projeto explora a relação entre corpo, tempo e matéria por meio de uma experiência de imersão sensorial. Ao longo do percurso, dormentes de madeira, pedra, grama e água integram-se como recursos que ativam os sentidos — o auditivo, o tátil e o térmico — gerando uma agradável experiência. Mais que um espaço de trânsito, “Shinrin-Yoku” foi criado como um ambiente para permanecer. (Alvaro Mier/CASACOR)

O tema "Mente e Coração" conduz essa tendência, que propõe uma arquitetura capaz não apenas de desacelerar, mas de atribuir maior profundidade à experiência de habitar. Aqui, não basta favorecer rituais de bem-estar: a casa se transforma em um lugar onde a espiritualidade assume um sentido ampliado, para além da religião, conectando o indivíduo a si mesmo, à natureza, à memória e ao mundo ao seu redor. É um convite à presença, à contemplação e ao cultivo de vínculos mais profundos com aquilo que sustenta a vida interior.

Daniel Gutiérrez - Santuario. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

Daniel Gutiérrez - Santuario. É um espaço zen contemporâneo que utiliza a versatilidade e a nobreza do bambu como linguagem arquitetônica. Inspirado em formas orgânicas e raízes, o pavilhão envolve o visitante em uma trama de bambu que gera cavidades e percursos de luz. Chama-se Santuário porque propõe uma pausa e a introspecção, funcionando como uma transição física e sensorial em direção ao equilíbrio interior. Com uma base cinza grafite e luzes quentee, é um projeto fluido que busca reconectar o ser humano com a sua própria essência. (Alvaro Mier/CASACOR)

O movimento se revela logo em Santuario, de Daniel Gutiérrez. Construído em bambu e inspirado em formas orgânicas, o pavilhão funciona como uma espécie de portal sensorial. A luz filtrada, os percursos sinuosos e a atmosfera de recolhimento sugerem que o bem-estar não nasce apenas da estética, mas da criação de pausas capazes de restabelecer o equilíbrio interior.

Gabriela Montaño e Leila Montaño - Interludio. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

Gabriela Montaño e Leila Montaño - Interludio. Interludio propõe uma pausa dentro do circuito. A mente guia um percurso funcional, enquanto o coração convida a desacelerar e reconectar com o bem-estar por meio da luz, da vegetação e das sombras mutantes de um pergolado permeável. Texturas pétreas, iluminação e materiais naturais constroem uma atmosfera sensorial inspirada na biofilia e na neuroarquitetura. Mais que um espaço funcional, o projeto convida a viver um momento de calma, contemplação e conexão com o ambiente. (Alvaro Mier/CASACOR)

Essa mesma busca aparece em Interludio, de Gabriela e Leila Montaño, e em Shinrin-Yoku, de Marcela Montes. Ambos se apoiam em princípios da biofilia para criar experiências que aproximam o visitante dos ritmos da natureza. Água, vegetação, texturas naturais e sombras mutáveis deixam de ser elementos decorativos para atuar como instrumentos de desaceleração, estimulando uma percepção mais consciente do tempo e do espaço.

Entre água e contemplação


Betty Ibañez - Isla Bonita. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

Betty Ibañez - Isla Bonita. A paisagista propõe uma experiência imersiva: um jardim onde materiais, água e vegetação se entrelaçam com naturalidade para dar forma a um refúgio que convida a pausar, habitar e permanecer para desfrutar. O espaço se revela como uma ilha de água cristalina e sensorial, cercada de natureza viva, onde cada elemento — das texturas aos sons e reflexos — contribui para uma atmosfera de calma, bem-estar e conexão. Aqui, o espírito do visitante reconcilia-se com o ritmo sereno da natureza. (Alvaro Mier/CASACOR)

A presença da água, aliás, atravessa diversos projetos como um elemento quase ritualístico. Em Isla Bonita, de Betty Ibañez, ela cria uma paisagem imersiva onde reflexos, sons e movimentos suaves transformam o jardim em um refúgio sensorial.

Freddy Jimenez - Dimensión Viva. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

Freddy Jimenez - Dimensión Viva. Neste espaço de bem-estar, a arquitetura é entendida como um diálogo sensível entre estrutura, matéria e atmosfera. O projeto desdobra-se a partir de planos horizontais que se abrem e se fragmentam com sutileza, apoiados sobre uma estrutura de concreto e metal com laje protendida. Ao longo do percurso, a água e a vegetação atuam como elementos articuladores, acompanhando o visitante em uma transição pausada em direção a um estado mais introspectivo, em reconexão consigo mesmo. (Alvaro Mier/CASACOR)

Em Dimensión Viva, de Freddy Jimenez, acompanha o percurso do visitante como um fio condutor para a introspecção. Em ambos os casos, a natureza não é apenas contemplada: ela participa ativamente da construção do bem-estar.

Quando o cotidiano ganha significado


Edgar Medrano, Rodrigo Mansilla e Thiago Aleman De Faria - Ecos del Rito. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

Edgar Medrano, Rodrigo Mansilla e Thiago Aleman De Faria - Ecos del Rito. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026. (Alvaro Mier/CASACOR)

Outro aspecto marcante é a valorização dos rituais cotidianos. Em Ecos del Rito, a arquitetura se organiza em torno dos gestos de preparar, compartilhar e pausar. A proposta sugere que a reconexão não acontece necessariamente em momentos extraordinários, mas nas pequenas cerimônias que estruturam a vida comum.

Patricia Barrón - Espacio 28 - Mente, Corazón y Cuerpo. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

Patricia Barrón - Espacio 28 - Mente, Corazón y Cuerpo. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026. (Alvaro Mier/CASACOR)

O mesmo raciocínio aparece em Mente, Corazón y Cuerpo, de Patricia Barrón, onde biblioteca, sala de cinema e espaço para yoga desenham um percurso dedicado ao cuidado integral.

A dimensão simbólica do habitar


María Eugenia Mercado e Paola Blanco - Loft Alma de Selva. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

María Eugenia Mercado e Paola Blanco - Loft Alma de Selva. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026. (Alvaro Mier/CASACOR)

A ancestralidade ganha ainda outra camada em Loft Alma de Selva, onde madeira, cerâmica e matérias-primas locais evocam uma relação mais direta com a terra, e em Aliento de la Tierra, da escultora Rosario Arzabe, que transforma o barro em suporte para reflexões sobre criação, espiritualidade e transcendência. Nesses ambientes, os materiais carregam significados que ultrapassam sua função construtiva e se aproximam de uma dimensão simbólica.

Rosario Arzabe - Aliento De La Tierra. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

Rosario Arzabe - Aliento De La Tierra. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026. (Alvaro Mier/CASACOR)

A CASACOR Bolívia revela uma tendência que ganha força em diferentes partes do mundo: a transformação da casa em um espaço de significado. Em tempos de hiperconexão, a arquitetura volta seu olhar para aquilo que é essencial e invisível — os afetos, os rituais, a memória, o silêncio e a presença. Se durante muito tempo o lar foi pensado como um lugar para mostrar quem somos, os espaços apresentados na mostra sugerem uma mudança de perspectiva: mais do que exibir, a casa passa a acolher.

SERVIÇO - CASACOR Bolívia 2026

Entrada única - Bs 130

Acesso ilimitado - Bs 500