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Sustainability, Cities

Como residências e condomínios podem ajudar a reduzir enchentes a partir da gestão da água da chuva

Ao reter e infiltrar parte da água da chuva dentro do próprio lote, soluções como pavimentos permeáveis, jardins de chuva e telhados verdes ajudam a aliviar o sistema de drenagem das cidades

By Redação

Submitted at Jun 13, 2026, 10:00 AM

08 min de leitura
Sanya Mangrove Park, em Hainan, é um dos projetos de Kongjian Yu que exemplifica o conceito de cidade-esponja, restaurando ecossistemas costeiros e protegendo a cidade contra enchentes.

Sanya Mangrove Park, em Hainan, é um dos projetos de Kongjian Yu que exemplifica o conceito de cidade-esponja, restaurando ecossistemas costeiros e protegendo a cidade contra enchentes. (Turenscape/CASACOR)

As decisões tomadas no desenho de casas e condomínios têm impacto direto na forma como a água da chuva se comporta dentro da cidade. Em áreas cada vez mais impermeabilizadas, o solo coberto por concreto e asfalto perde sua capacidade natural de absorção, o que intensifica o escoamento superficial e sobrecarrega o sistema urbano de drenagem.


Quando um lote consegue reter parte dessa água, o efeito se espalha para além de seus limites. Menos volume segue para as ruas, o sistema público fica menos pressionado e o risco de alagamentos diminui. Nesse contexto, a arquitetura deixa de ser apenas um agente passivo da urbanização e passa a assumir um papel ligado diretamente à resiliência climática das cidades.

Gabriela Montaño e Leila Montaño - Interludio. Ambiente da CASACOR Bolívia 2026.

Gabriela Montaño e Leila Montaño - Interludio. Interludio propõe uma pausa dentro do circuito. A mente guia um percurso funcional, enquanto o coração convida a desacelerar e reconectar com o bem-estar por meio da luz, da vegetação e das sombras mutantes de um pergolado permeável. Texturas pétreas, iluminação e materiais naturais constroem uma atmosfera sensorial inspirada na biofilia e na neuroarquitetura. Mais que um espaço funcional, o projeto convida a viver um momento de calma, contemplação e conexão com o ambiente. (Alvaro Mier/CASACOR)

Com a intensificação de eventos extremos, esse olhar ganha ainda mais urgência. Projetistas são levados a ultrapassar os parâmetros mínimos definidos por legislações municipais e a incorporar estratégias mais consistentes de manejo da água pluvial.


De acordo com a equipe técnica da certificação de sustentabilidade AQUA-HQE™, da Fundação Vanzolini, pavimentos drenantes têm papel relevante nesse processo ao reduzir a impermeabilização do solo e favorecer a gestão da água da chuva. O referencial técnico da certificação estabelece coeficientes diferentes de impermeabilização conforme o tipo de superfície, distinguindo, por exemplo, áreas gramadas, pavimentos porosos e coberturas vegetadas de superfícies como ruas e estacionamentos.

Planejamento do solo desde o início do projeto


Ana Lui e Karen Marini - Jardim Respiro. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Ana Lui e Karen Marini - Jardim Respiro. Com 300 m², este jardim dá início à jornada pela mostra. As paisagistas Ana Lui e Karen Marini adotaram uma curadoria botânica que privilegia espécies brasileiras pouco usuais, como orelha-de-onça e tataré, dispostas sob princípios do paisagismo naturalista contemporâneo, que valoriza ecossistemas locais. A fim de reduzir intervenções e respeitar a dinâmica do solo, a dupla não tocou na base do terreno nem interferiu na drenagem original. O projeto inclui um espelho d’água, a escultura Geometria da Alma, de Luhly Abreu, e um meliponário (conjunto de casinhas destinadas à criação de abelhas sem ferrão). (Camila Santos/CASACOR)

Esse tipo de abordagem ganha força quando o estudo de impermeabilização do terreno é feito ainda nas etapas iniciais do projeto. A partir dessa leitura, torna-se possível incorporar soluções como biorretenção e jardins de chuva, desde que haja coerência técnica, estratégia de manutenção e integração adequada ao conjunto arquitetônico e paisagístico.


Em residências e condomínios, uma alternativa eficiente para equilibrar desempenho ambiental e uso do espaço é a adoção de pavimentos intertravados e jardins de chuva em áreas privativas. A proposta é que esses elementos deixem de ser tratados apenas como infraestrutura e passem a dialogar com o paisagismo e os espaços de convivência.


Os pavimentos intertravados são sistemas formados por peças pré-moldadas assentadas com juntas que permitem a infiltração da água entre os blocos, reduzindo o escoamento superficial e favorecendo a drenagem do solo. Já os jardins de chuva funcionam como áreas vegetadas rebaixadas, projetadas para receber e filtrar a água da chuva, retardando seu escoamento e contribuindo para a recarga do solo de forma controlada.

Telhados verdes como parte estratégica


Casa grelha - FGMF -telhado verde

(FGMF/CASACOR)

Em terrenos com alta ocupação, onde há pouco espaço disponível no solo, as coberturas passam a desempenhar papel importante na retenção da água da chuva. Os telhados verdes entram como parte dessa estratégia, embora não substituam integralmente a infiltração natural do terreno.


O referencial mais recente da certificação AQUA-HQE diferencia os sistemas de cobertura vegetada em extensivos, semi-intensivos e intensivos, atribuindo a cada um coeficientes distintos de desempenho hídrico. A espessura do substrato é o principal fator que influencia essa capacidade de retenção.


Na prática, essas coberturas ajudam a reduzir os efeitos da impermeabilização, mas funcionam melhor quando combinadas a outras soluções, como áreas verdes no solo, pavimentos permeáveis e estratégias integradas de drenagem, especialmente em empreendimentos com alta densidade construtiva.

Uso doméstico da água da chuva


Simone Campos Paisagismo. Semeando o Futuro, 2050. Projeto da CASACOR São Paulo 2025.

Simone Campos Paisagismo. Semeando o Futuro, 2050. A São Paulo inclusiva e segura sonhada para os próximos 25 anos se materializa no duo de jardins que ladeiam o caminho de entrada da mostra. Plantados pela paisagista que cresceu no entorno, eles somam 165 m2 e acompanham os painéis informativos sobre a história do Parque da Água Branca alocados logo em frente. Há praças de descanso e contemplação com mobiliário urbano confortável, bebedouros para humanos e animais, e espécies frutíferas atraem a avifauna. Já as árvores antigas funcionam como testemunhos da preservação e do respeito à natureza. Os pisos drenantes, capazes de reduzir o acúmulo de água da chuva, atendem quesitos de sustentabilidade. (Carolina Mossin/CASACOR)

Outro eixo essencial da sustentabilidade residencial é o aproveitamento da água da chuva dentro das próprias edificações. Para que isso ocorra com segurança, o sistema exige cuidados técnicos desde a implantação até a operação.


É fundamental garantir a correta identificação das tubulações, além de estabelecer rotinas claras de manutenção e controle. Quando destinada a usos não potáveis, como irrigação ou lavagem de pisos, a água deve ser tratada dentro de parâmetros que assegurem a segurança sanitária.


Essas soluções precisam seguir as normas brasileiras aplicáveis, como a ABNT NBR 15.527, que trata do aproveitamento de água de chuva de coberturas, e a ABNT NBR 16.783, voltada ao uso de fontes alternativas de água não potável.